Our Eternal Summer

Sensível poética do corpo

Por Vitor Velloso

Durante o Festival de Locarno 2021

Criando um recorte sobre o não pertencimento e as perdas precoces, “Our Eternal Summer”, de Émilie Aussel, cai como uma luva para o lobby francês diante dos grandes festivais. A obra é a síntese da contemporaneidade do cinema europeu, onde as liberdades são mantidas como retratos individuais e a coletividade uma festa expressiva dos corpos. Em resumo, é a programática das produções independentes do “velho continente”, com categorizações modais como “poético” e “sensível”. O prêmio do especial do júri Ciné+ (para distribuição em solo francês) não poderia ter uma opção melhor para circulação da obra, afinal, a manutenção do “status quo” deve ser feita através dessas janelas de mercado.

Presente na Concorso Cineasti del presente, a trama acompanha a história de uma jovem francesa que perde a melhor amiga em um acidente improvável. Percebendo que nada dura para sempre, ela procura um novo fôlego em meio à novos encontros para “renascer” (palavra da própria sinopse). A expressão geracional encontra aqui um paralelo para correspondências como: “perene”, das “sensitividades”, da “poética” e até da “corporeidade”. É uma espécie de grande sarau zonasulesco nos litorais franceses. Apesar de “Our Eternal Summer” tratar a depressão e o suicídio como uma temática séria, necessária para ser debatida, com a ajuda das pessoas ao redor, a obra não consegue se desvencilhar dos grilhões industriais que procuram as reproduções ágeis de certos cacoetes formais e narrativos. Os esoterismos do movimento e da arte, é o reduto de acalanto dessas liberdades individuais. Aparentemente a cultura francesa nunca superou as manifestações de 68 e os desdobramentos pró-liberais, frequentemente traduzido como “libertários”.

Por essa razão, não surpreende que o filme procure algumas aproximações imediatas com uma “arthouse français”, criando esses recortes espaciais e tratando as relações como potenciais curas das dores. É como se estivéssemos diante da juventude de “Soul of a Beast” em tempo integral, mas sem nenhum tipo de selvageria, apenas o caráter excêntrico das relações “líquidas”, onde a autodescoberta e a maturidade caminham junto às ideologias (ou a falta de) dessa liberdade. Contudo, o longa tem alguns méritos, ainda que de caráter programático, como os depoimentos diante da câmera. A razão de aspecto muda e o espectador pode fitar o rosto dos personagens como um confessionário gravado para exibição posterior. É um dispositivo que tem seus altos e baixos, mas funciona na maior parte do tempo. O problema mesmo é o eixo narrativo com os artistas, que faz o ritmo despencar e o negócio fica tedioso, o que em um primeiro momento soa como breve passagem dramática, se torna o verdadeiro motor dramático de uma obra que sempre depende dessas relações para “renascer” a protagonista, objetivo perseguido rigorosamente até o fim. Até essa compreensão parece perturbada por uma ideia utópica de fim dos ciclos, encontrando o princípio e vice-versa.

Não é apenas clichê, é sintomático. Uma sina catártica que a intelectualidade francesa é incapaz de resolver. “Our Eternal Summer” é incapaz de sair da sombra consensual da indústria independente do velho continente. É racional quando lhe convém e divaga à procura de imagens “poéticas e sensíveis”, traduzindo o “perene” da vida. A velha proposta catalítica da representação que se estagnou há décadas e tenta reformular a mesma ideia com requintes distintos. Soa como um café requentado. E por mais que Émilie Aussel consiga alguns planos bonitinhos, a articulação implora por uma distribuição massiva de Toulouse à Paris. Bom, conseguiu, o lobby quase nunca falha e dessa vez garantiu um prêmio, verba e uma cartela de participação para creditar antes das exibições.

Infelizmente a temática é engolida pela estilização genérica, a cirandesca fórmula (o título lembra The Strokes, não por acaso) em torno da suavização do suicídio é como a negação do fantástico como escape. Algo que “Our Eternal Summer” ainda tenta fazer no fim da projeção.

Trailer

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