Ostinato

O inconjugável

Por Vitor Velloso

Durante a Mostra de Tiradentes 2021

O filme de abertura da 24ª Mostra de Tiradentes chega como complemento da homenagem a Paula Gaitán. “Ostinato” seu último lançamento, é um documentário em torno do processo criativo de Arrigo Barnabé. O barato aqui está na objetiva de Gaitán, que enquadra Arrigo e permite sua música ecoar pelo quadro como se o limite fosse a tela e existisse uma intermediação câmera versus ouvido. Desta maneira, a cineasta abre o repertório do audiovisual para uma compreensão que se amplia para uma atitude quase permissiva dos momentos com o músico, mas com um rigor que reforça uma atitude axiomática da própria teoria do cinema. O resultado é um imbróglio intelectual formalizado pela falibilidade da compreensão diante da projeção em origem mais primitiva. 

Ou seja, existem pensamentos estoicos que acabam transando com algumas formas cinematográficas exibidas por Gaitán, o que não a faz representante do pensamento. Pelo contrário, talvez pela urgência de uma concretização do materialismo histórico, como um processo dialético, a partir de uma ruptura formal, que passa a significar um eixo onde a estrutura é ditada pela montagem. Em suma, a misancene (nas palavras de Glauber Rocha) é recortada pelo tempos dessas imagens, a medida que o pensamento se unifica à ordem de seu material, em tempo, espaço e configuração histórica. Não à toa, é comum falar da versatilidade de Gaitán ou de uma representação particular de cada projeto. 

Surge o fetiche de parte da crítica nacional, decifrar o movimento “orgânico” que faz a Gaitán ser uma erupção de ideias e vertentes. A leitura pode passar por questões de cunho absolutamente reacionário, pois não parte do entrave da cultura nacional como a argamassa que é capaz de unir uma cinematografia à obra de Gaitán e sua proposta dialética de compreender, quando não assimilar, o materialismo histórico como uma verve de criação. É onde surge o primeiro imbróglio, não há organicidade, sim unidade. Criatividade se colocada no campo do criacionismo orgânico, natural, é fomento liberal para políticas de secção e valoração da moral e da ética. “Ostinato” é uma investida nesse campo do processo criativo de Barnabé, mas com seus traços referências muito demarcados já na fala de seu protagonista. Que é complementada em momentos deslocados pela diretora, ajudando a criar um mosaico para a compreensão da música de Barnabé, não mapear o local e a data da nascimento de uma obra. De criacionistas e negacionistas (já basta os que ocupam o Planalto). 

E essa articulação que Gaitán constrói, perpassa por diversas questões que a teoria cinematográfica segue encucada e batendo cabeça há anos. Uma proposição que é nomeada irreverente por uma necessidade imediata de categorização, que em verdade se encontra no campo primitivo do audiovisual, como uma revisão crítica, totalizante, que é feita a partir da linguagem apresentada na obra, sempre desinibindo reatividade de uma construção que é feita em contraposição à tautologia da própria expressão audiovisual. As obras de Gaitán são uma espécie de digressão da transgressão. Não é antítese de dicionário cinematográfico, nem verborragia, é cinema a partir da veia criativa como um movimento de origem material, que encontra na objetiva cinematográfica, o lado subjetivo de uma ordem que só pode ser representada se registrada. 

Contudo, facilmente o espectador pode se perder em devaneios filosóficos ou catedrais sonoras em torno desse processo criativo que, em dialética, se encontra a partir de um enfrentamento desse processo em via dupla. É uma sessão aberta de duas frentes distintas de criação, onde a troca se torna o próprio motor de “Ostinato”.

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