Os Príncipes

Um amargo Adeus

Por Vitor Velloso

Luiz Rosemberg Filho foi uma lenda do cinema brasileiro, um dos maiores de nossa história, deu ao Brasil, “Jardim das Espumas”, “Crônica de Industrial”, os contemporâneos “Guerra do Paraguay” e “Dois Casamentos”. Contudo, seu último projeto finalizado “Os príncipes” é o retrato da decadência de uma moral que paira sobre o mundo.

Tendo como ponto de partida uma narrativa caótica que vai abarcar uma vertigem estrutural, o filme vai se focar em dois homens criminosos que se autodenominam “príncipes” e seus processos de violência contra duas mulheres. Enquanto o espectador tenta compreender de onde veio o fetiche da violência (uma constante por natureza da imagem, norte-americana), o longa insiste na provocação reacionária do “politicamente incorreto”, tentando reestruturar a “liberdade de expressão”. Tais argumentações foram dadas pelo próprio diretor antes de partir.

Mas a infantilidade do gatilho de verve canhestra, contamina todo “Os Príncipes”, com seguidas cenas de estupro, um excesso de nudez sendo jogada na tela, cenas de exposição do corpo feminino que apenas expõe a masculinidade tóxica, ali presente. Na vertiginosa abordagem, Rosemberg cria uma fragmentação do tempo e do espaço, mas se utiliza dos artifícios para inclinar ao desconforto geral, dois personagens transando em um chão repleto de verduras e frutas, aparentemente é algo grotesco na visão do diretor, a violência que se impõe na encenação é reduzida pelo olhar fetichista que enquadra a imagem.

O saudosismo do projeto é notório, além da direção de arte reforçar aspectos do século XX, a moral deturpada que flerta com o absurdo, retorna como uma reestruturação daquilo que Rô(Rosemberg) fazia no passado. Essa proposta de abarcar o sujo e o submundo, tão presente em “Jardim das Espumas”, é reiniciada aqui com a visão turva de uma pessoa que sai do eixo de determinadas discussões políticas, pois não se adaptou ao mundo contemporâneo. Rô persegue, aqui, o próprio rastro, e decide responder com violência, um mundo onde seus pensamentos entraram em decadência, pois era incapaz de reconhecer o anacronismo de determinadas visões.

E se ignorarmos todas essas questões e focarmos na estética e na linguagem, não há uma unidade que possa ser chamada de potente, pois os blocos narrativos que compõem o filme são de naturezas tão distintas que gera um abismo entre eles. Algumas cenas são realmente bem construídas, enquanto outras provocam a sensação contrária da intenção do longa. Assim, a falta de unidade do filme se reflete na forma, que parece não se encontrar durante o progresso, aliado a isso, a fotografia consegue aplicar um tom chapado demais em determinadas imagens, em outras, se destaca atravessando o cenário.

Mas ainda que os atores estejam bem, dentro da proposta e esse caos apela à desorganização da misancene, nada parece flertar com uma temática em comum, além do fetiche fálico que norteia o projeto. O desencontro das tentativas de construção de alguns discursos, são uma falta de perspectiva dentro da própria concepção daquilo tudo. Não à toa, o final do longa utiliza material de arquivo para criar uma crítica à PM, mas não possui contexto algum na obra. Além do mais, alguns diálogos inflamados, um deles uma clara referência ao “Superoutro” de Edgard Navarro, não são compatíveis com a própria locação, onde um dos personagens grita que todos ali na rua são proletários, ao observarmos o local, vemos que estamos em Botafogo, Zona Sul do RJ, que descaracteriza totalmente qualquer aplicação política daquela fala.

Em qualquer implicação da postura do diretor diante daqueles corpos, o anacronismo que se busca nos estímulos sensoriais do projeto, não funcionam pois a moral deturpada que se aplica às mulheres e à imagem não são de cunho epocal, mas sim de um flerte com vibrações mais antigas que a nostalgia que emana de algumas “liberdades de expressão”. Ainda que tais assuntos tenham vindo à tona com força recentemente, isso não tira a importância dessas pautas anteriormente. E neste ponto nasce uma grave problemática de “Os Príncipes”, é um filme que nasce arcaico tematicamente e em sua concepção política. Além de não suscitar nenhum estímulo novo à forma, já que sua proposta é retirada de um apanhado de referências sucateadas, ou que reinterpreta determinados arquétipos de um modernismo. E talvez esse seja o problema, esse excesso de inclinação à um momento que se desfez pelas proposições políticas.

 

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