Colônia Maldita

Por Vitor Velloso

“Os papéis de Aspern” é uma ocorrência tão comum e medíocre no cinema, que escrever sobre a obra é um exercício um tanto quanto cansativo. Não por uma questão única do filme em si, mas exatamente pela maneira como o mesmo não possui identidade alguma e entrega-se aos maneirismos preguiçosos e uma fórmula barata de produção. Isso aqui é tudo menos único.

Partindo de um romance de Henry James, que possui uma vasta destruição na sétima arte, o espectador está diante de mais uma adaptação, porém, atuada por Jonathan Rhys Meyers, que quase nunca é um bom sinal, e marca a estreia de Julien Landais na direção, um começo duvidoso. Julien parte de uma proposta bastante televisiva em sua abordagem, tanto em questões formais, como na estrutura dramática que aplica, com diálogos expositivos, reviravoltas tolas e uma necessidade de conspirações fajutas. Ainda que haja em parte isso no livro original, as diferenças de compreensão das mesmas são claríssimas. O jogo cênico do diretor se resume a configurar um conflito a ser resolvido brevemente, com uma série de questões não explicitadas, iniciar um diálogo que irá expor fantasmas dos personagens e/ou um plano tipicamente europeu que valoriza os figurinos de época, a locação e a luz que entra pela janela. Esse arquétipo faz com que sua misancene não passe de um esquemático momento televisivo com uma atuação duvidosa, com uma direção pouco segura de suas ações.

Existe uma necessidade imensa nos produtos europeus, me refiro aqui aos produzidos em massa com intenções financeiras, de se vangloriar de uma geografia própria e introduzir o elemento “Europa” como peça fundamental da obra, o que à priori não é um problema, já que valorização de cultura é uma peça fundamental do cinema, porém, o curioso é enxergar a falta de verve em concretizar a estrutura social e crítica da cidade, que a maioria das obras possui. Claro que diversos grandes diretores foram mestres nisso, inclusive Antonioni (para fazer referência ao país onde se passa o filme, Itália, Veneza), mas a consciência da estética abordada e da narrativa que tinha em mãos era visível já na misancene.

Julien parece não querer fazer seu melhor, não se esforça em construir uma obra que possa ser diferente do texto de Henry, claro, mas que respeite a paixão que ele próprio alegar ter do escritor (em entrevistas a diversos veículos), talvez o maior problema aqui seja a hipérbole do drama, a falta de experiência na direção e um elenco desafinado. Vanessa Redgrave faz tudo que pode para salvar isso aqui, mas seus esforços são em vão, todo o roteiro não sustenta sua proposta de interpretação. O que mais incomoda é a massiva quantidade de filmes de época que querem sustentar a idealização de uma cultura europeia, a partir de uma trama envolvendo as habilidades inimagináveis de um artista, que são lançados no Brasil, é uma verdadeira invasão cinematográfica. Se já não bastasse os EUA, os circuitos menos populares, localizados nas áreas nobres, que podem se dar ao luxo de recusar a entrada de uma série de produções, permite a exibição de obras medíocres que apenas querem lucrar com fórmulas estabelecidas. Enquanto isso, os realizadores brasileiros que já não possuem o apoio do Estado, na produção, se desdobra para distribuir seu longa à exibidores que não se interessam em divulgar tais filmes, pois, os Europeus e norteamericanos rendem mais.

As perspectivas do espectador no Brasil são mínimas, não há opção nas salas, nem produção nacional em circulação, se culturalmente sempre fomos colonizados, longas como esse apenas nos lembra que parte do público prefere ver uma novela canhestra européia, que “Mormaço” no cinema. Em longos diálogos com cineastas, podemos perceber o medo que há no mercado que restou, não há mais espaço, nem para produções, muito menos artistas. Quer fazer? Faça um produto chanchadesco aqui e acolá, chama de cinema “brasileiro”, convence o povo que é o único, contrata globais, lucra um bocado em cima disso, mas permita que a cultura estrangeira domine a nossa e faça os exibidores ganharem dinheiro. Estrutura de desmonte. Barbárie. Balbúrdia.

A fala é necessária, diferente da música de “Os papéis de Aspern” que apenas secam a paciência do espectador, enquanto a música cresce em dramas vertiginosos, a luz da projeção do cinema nacional se apaga, pois o único som que há, vem das ruas.

Trailer

https://youtu.be/T_wXigbnXpU

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