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Os Aeronautas

O mercado e o vôo tortuoso

Por Vitor Velloso

Amazon Prime

Os Aeronautas

Com lançamento limitado nos cinemas, “Os Aeronautas” chegou à plataforma da gigante do Streaming, Amazon, dividindo opiniões e abrindo uma longa discussão acerca de questões históricas e sua transposição cinematográfica. Alguns acusaram a falta de veracidade de um filme que busca um lado científico da questão, outros apontaram para a exclusão de um dos cientistas nas jornadas (utilizando-se do machismo para o mesmo) etc. O longo debate que veio à tona serve para dar luz à um projeto que por natureza está fadado ao fracasso, pois não endossa seu lado lúdico a ponto de justificar um público em específico, assim como não consegue conciliar com as verve científicas, a fim de obter interesse de outros.

A velha questão do equilíbrio no cinema comercial é abandonada aqui, em uma tentativa canhestra de transformar um melodrama tedioso em uma terapia de frustrações sucedidas em altitudes assombrosas. Tudo isso costurado com uma estética que tenta chamar atenção para os planos abertos e toda a paisagem que expõe, o que não é difícil já que a própria narrativa dá margem para isso. Os planos megalomaníacos que buscam abarcar uma imensidão de nuvens, não conseguem sustentar as quase duas horas de projeção, criando uma estrutura ainda mais burocrática para algo que já possui barragens demais em seu desenvolvimento.

Tom Harper assina a direção de “Os Aeronautas”, assumindo um tom absolutamente genérico desde o primeiro momento, concretizando cada clichê como um monumento ideológico, ou seja, assume sua previsibilidade e toda uma jornada prescrita de ponta a ponta, como uma receita de bolo, para que consiga angariar público para o filme. Tenta atualizar determinadas vertentes políticas daquilo em que toca, mas não compreende a real modificação daquilo, tanto no projeto, como no mundo contemporâneo frente àquele momento em questão. E aqui, não faço direcionamento de razão para nenhum das críticas feitas no início do texto, pelo contrário, acredito que o debate sobre a verdade x ficção, pouco interessa aqui, ao menos da maneira como vêm sendo realizado.

De fato, trata-se de um longa que não consegue chegar à um alvo em específico e torna-se um produto de sessão da tarde, para agradar uma família, mas sem ser capaz de chegar à alguma catarse minimamente relevante. Assim, toda a veracidade, ou não, que envolve a narrativa do projeto torna-se segundo plano. O que temos de forma factual, é um longa frágil que não desenvolve as próprias ideias que presume em sua estética. Quando cria uma espécie de gráfico no quadro, para nos dar a dimensão do feito e de proposições científicas que ali estão envolvidas, ainda que de maneira superficial.

O dramalhão instaurado só piora aquilo que já estava de dissolvendo. Uma sucessão de convenções industriais, de arquétipos prontos e gadgets rápidos surgem na tela quando o espectador passa a crer que há algo a se contemplar ali. Não, não há. É tudo uma tela imensa para aprimoramento da estética imperialista, ou seja, nos fazer crer na beleza de uma jornada gringa, em território igualmente estrangeiro, para que o mundo veja as façanhas e o contemplação dessa política em específico. O famoso contra tudo e contra todos vêm com uma força descomunal, em uma série de retratos isolados de um grau de exposição tenebroso, onde cientistas abandonam o protagonista a falar apaixonadamente etc. Toda e qualquer previsão que se possa fazer aqui, ocorre em um dado momento.

A jornada do personagem é tão delineada pela proposta arcaica que praticamente a assume em imagem e som. É tudo tão regrado dentro de uma fórmula de sucesso econômico, que torna o processo todo um ansiolítico cinematográfico. A precarização na distribuição do cinema, pode até ter influenciado na experiência que se tem da obra, mas sem sombra de dúvida não salvaria a mesma.


“Aeronautas” é tudo aquilo que o mercado cinematográfico precisa, de vez em quando, para manter o sonho de uma meritocracia, de um estado lúdico das coisas e da prosperidade intelectual, via econômica. Não consegue se distanciar do mais preguiçoso projeto de compra ideológica e prova que a química Eddie Redmayne e Felicity Jones não é à prova de mercado. Mayne segue sendo um canastrão absoluto, que recompõe de maneira constante o mesmo personagem, em projetos distintos. E Jones, brevemente mais versátil, mesmo com carisma, não consegue carregar o filme nas costas.

1 Nota do Crítico 5 1

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