Os 3 Infernais

O legado de Zombie

Por Vitor Velloso

Rob Zombie. Uma figura caricata, no mínimo curiosa, que ganhou espaço na indústria dos filmes B norte-americanos, por sua postura desleixada, visceral e inquietante de fazer cinema. Inicia sua carreira com “A Casa dos 1000 corpos” e “Rejeitados pelo Diabo”, demonstrando que como diretor de cinema, é um músico famoso (não necessariamente bom), mas angaria fãs rapidamente, com o estilo sujo de suas películas. Após muitos anos, o mercado viu a chance de ressuscitar a franquia com um novo projeto, assim como o próprio cineasta.

“Os 3 Infernais” busca continuar a história iniciada em 2003, com a trama de Spaulding (Sid Haig), Baby (Sheri Moon Zombie) e Ottis (Bill Moseley), mas com a saúde debilitada de Sid, um novo personagem foi inserido na trilogia, Coltrane (Richard Brake). Não há nenhuma novidade na estrutura proposta por Zombie, violência e morte desenfreada sem a menor lógica narrativa. Que a princípio não seria uma problemática tão intensa, se existisse alguma concepção (com relação à produção e linguagem) de como realizar este entretenimento sádico, fetichista da violência e tipicamente americano.

Porém, em “Os 3 Infernais”, Rob demonstra a mesma característica do início de sua trajetória, uma profunda inabilidade de construir uma cena. Cada corte é uma tragédia anunciada, os diálogos desafiam a paciência, o design de som é canhestro, as atuações terríveis, o design da produção é uma bagunça etc. Mas nada disso importa pro realizador, que se diverte em filmar as sequências irracionais, com atitudes absurdas e uma sanguinolência que reflete parte da gangrena cultural do povo estadunidense.

O mais interessante disso é a profunda indiferença do diretor com relação a qualquer questão que seu longa possa atravessar. Rob Zombie é um espelho curioso de uma sociedade doente, que afirma uma contemporaneidade em parte de suas atitudes, incluindo a montagem de suas cenas de ação, mas busca um resgate à valores e morais arcaicos, com nostalgia de uma época que não viveu. Não à toa, essa inclinação ao faroeste, aos slashers, à ruptura política com qualquer resquício não-norte-americano, o excesso de estereótipos que surgem na tela e o culto à um materialismo próprio do capital, que explica o fetiche pela película, além da negação do tempo em si. Esse estado concreto no qual Rob e seus fãs se colocam, implica nessa relação dúbia com as questões que cruzam seus filmes, músicas e discursos. Uma estagnação brutal da virilidade arcaica que anseia pela explosão de sangue e sexo no ecrã.

Ainda que não se leve a sério neste viés retrógrado, há uma necessidade constante de reafirmação de valores datados. Consequentemente seus produtos soam reflexos de um espasmo tortuoso do período glorioso de uma cultura em decadência. É claro que há comicidade neste processo, já que o corpo dessa reflexão, mesmo que não voluntária, de uma parte da sociedade, transmite a profunda ferida que há no ego da indústria e de quem a mantém. Logo, é possível haver entretenimento em algo tão funesto e patético. E é este o trunfo da trilogia, ser um amálgama de imbecilidade coletiva, costurada por uma insanidade brutal que vai traduzir perfeitamente a fragilidade do gênero. Um horror que já não se assume como tal, por um narciso ferido.

A hibridez de suas proposições vêm de uma pluralidade que não foi concretizada no coração dos que se mantiveram fiéis à estrutura clássica apresentada no século XX. Defender qualquer versatilidade por parte de Rob, é ignorar a natureza política e cultural da imagem que se produz. A contextualização é necessária para que haja comprometimento dialético daquilo que se vê. Faz tempo que pela internet determinadas obras são exaltadas formalmente ou narrativamente, sem que uma reflexão seja feita a partir dos elementos que tais autores nos entregam. Um erro medonho e perigoso, pois a falta de sensibilidade com a natureza destas películas, torna a cinema ainda mais volátil.

Por trás de um plano ou outro bonito, com luzes que atravessam os quartos, “Os 3 Infernais” é um show de horrores e trapalhadas formais, como a sequência do massacre na casa, que é capaz de provocar o riso pela estupidez de cada frame projetado. 

 

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