O Verão de Adam

Não Somos, Estamos

Por Jorge Cruz

Durante o Festival do Rio 2019

O Verão de Adam” se passar no ano de 2006 não é algo aleatório e diz muito sobre a sociedade do início do século XXI e sobre a roteirista Ariel Schrag (adaptando seu próprio livro). Ela, uma artista multifacetada, é mais famosa por seus quadrinhos autobiográficos e suas graphic novels de sucesso. Além disso, era uma das autoras da importante série “The L Word“, que entre 2004 e 2008 levou a representatividade lésbica e bissexual feminina para o horário nobre da TV norte-americana.

Chamava a atenção de Schrag o fato de todas as roteiristas se enquadrarem no espectro de gênero abordado no seriado, exceto um homem cis-hetero que precisava se fazer de homem trans para frequentar bares e colher material para utilizar no programa. Justamente em 2006, ao longo da terceira temporada, ela escreve “O Verão de Adam”, uma comédia que em nenhum momento é jocosa. Pelo contrário, utiliza todos os elementos característicos de pessoas fora do padrão heteronormativo para aliar diversão e informação.

Ambientar o filme em 2006 também retrata um período em que os estudos de gênero avançaram ao ponto de parcela considerável da sociedade entender as demandas da comunidade LGBTQ, na busca por seus direitos e na proliferação de manifestações, paradas e festas direcionadas a esse grupo invisibilizado. Lançado em 2019, um momento bem mais sombrio na luta pela igualdade, faz crescer até certa nostalgia de quem foi jovem em um período um pouco mais libertário, com menos influência externa à autonomia dos corpos.

O protagonista Adam (Nicholas Alexander) é um adolescente de Piedmont, uma cidade de pouco mais de dez mil habitantes no interior da Califórnia. Cansado de percorrer a cansativa tradição de passar o verão viajando com seus pais, ele ousa sair de sua zona de conforto e pede para ficar em casa durante as férias. Por ter acabado de passar para o segundo ano do Ensino Médio, os responsáveis acreditam que ainda é cedo para o garoto ter todo aquele espaço à sua disposição. Ele propõe então viajar para Nova Iorque e ficar um período com sua irmã Casey (Margaret Qualley). A jovem universitária é lésbica, mas diz aos pais que possui um namorado. Adam lhe serve de cúmplice e confidente.

O diretor Rhys Ernst , em seu primeiro longa-metragem, nos apresenta um teen movie um pouco mais carregado no drama. Usa pouco o magnetismo natural de um lugar como Nova Iorque, optando por trazer apenas um pouco de street art, em um passeio que leva a crer que o personagem transita por Soho. “O Verão de Adam” procura preservar as lições de representatividade da obra original a qual adapta. Partindo de um leque muito mais complexo do que os defensores da binaridade ousam imaginar, procura inserir em seu texto pequenos aprendizados na forma de correções sobre nomenclaturas e experiências vividas pelos personagens.

Como Adam está ali explorando um vasto terreno de descoberta, é aceitável que diversas pessoas transitem a sua volta, entrando e saindo de cena de acordo com a conveniência. Todavia, isso faz com que nenhum outro personagem tenha uma história dignamente desenvolvida. Gillian (Bobbi Salvör Menuez), seu par romântico, ainda consegue ser entendida com ligeira profundidade, muito a partir das verbalizações de suas experiências do que pelas situações vividas.

A comédia é puramente situacional e se dá com a escolha de Adam por se passar de homem trans para emplacar um namoro com Gillian. Há uma esquete ou outra, como a que envolve M.Night Shyamalan, que em 2006 havia lançado “A Dama na Água“, mas a graça em “O Verão de Adam” depende muito do envolvimento do espectador com aquela trama. Ariel Schrag não se preocupa em parecer didática em vários momentos de seu texto. Sua preocupação, assim como ocorria em “The L Word”, é se pautar na fidelidade das representações. Justamente aqui se extrai boa parte do prazer de assistir a essa obra, já que alguns se identificarão enquanto outros sanarão dúvidas sobre interações sociais por eles não vividas. Adam, como adolescente longe da perfeição, diverte ao se enrolar em seus relações, muito por ser movido pela curiosidade. Essa inconsequência de Adam, suas escolhas potencialmente ofensivas àqueles que lhe estão próximos, poderia transformar o filme em um suco amargo, um aprendizado com dor. Porém, Schrag nos envolve em um texto que equilibra sua doçura a ponto de não cair para o ciranderismo indie de obras como “Pequena Miss Sunshine” e “Juno“, sem deixar de furar a camada do simples entretenimento.

Não há momento de pura leveza em “O Amor de Adam” porque não é assim que os pessoas ali representadas conseguem viver suas vidas. Quando o filme segue um caminho curto para tratar da violência a partir da homofobia, toda aquela rede de contato e articulações dos personagens que transitam pelo protagonista faz ainda mais sentido. Na busca por soluções que independam das instituições engessadamente constituídas, o longa-metragem cumpre suas funções de informar, resgatar um passado remoto onde o debate era mais aberto e fustigar quem não se conforma com tal retrocesso. Há quem diga que a base, o argumento do filme, acaba reproduzindo a mesma LGBTfobia que ele ousa criticar. De fato, é possível aceitar essa leitura e é fundamental que sejam reconhecidos os argumentos de quem assim entende a obra. Não foi vista negatividade na trama de um casal improvável, que reconhece a complexidade de gênero e sexualidade dos outros para se dar conta da que carrega consigo a mesma característica. Fica o recado de que qualquer rotulação dificilmente gera efeitos positivos. Na fluidez da vida, em meio a lapsos de humanidade que tomam conta de todos nós, é preciso reconhecer que nada somos, apenas estamos.

 

 

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