Crítica: A Cinco Passos de Você

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Bem-intencionado, porém açucarado

Por Pedro Guedes


As young adult novels (ou “romances para jovens adultos”, no bom e velho português) constituem um mercado financeiramente forte e que ainda hoje cativa não só os leitores que estão por volta dos 20 anos de idade, mas também aqueles que ainda estão passando pela adolescência e se identificam com as narrativas, personagens e arcos dramáticos que estas obras trazem. E é claro que o Cinema não ia deixar de aproveitar o potencial comercial desta vertente editorial, adaptando para as telonas obras como “A Culpa é das Estrelas”, “Cidades de Papel”, “Com Amor, Simon”, etc (sem contar “13 Reasons Why”, que se transformou em uma série da Netflix).

O mais novo exemplar deste segmento literário/cinematográfico se chama “A Cinco Passos de Você”, que, mesmo sem tomar como base um livro já publicado há anos (em novembro do ano passado, a autora Rachel Lippincourt foi contratada para transformar o roteiro do filme em um romance de quase 300 páginas), segue de perto a fórmula estética, narrativa e temática responsável pelo sucesso de tantas young adult novels. Roteirizado por Mikki Daughtry e Tobias Iaconis, o longa conta a história de Stela Grant, uma adolescente portadora de fibrose cística e que, em função disso, vive num hospital aguardando por um transplante de pulmões. Sem poder encostar em seus amigos que também sofrem da mesma doença, Stela é surpreendida pela chegada de Will Newman, outra vítima da fibrose cística – e embora os dois se apaixonem um pelo outro, o casal é proibido de se abraçar, se beijar ou mesmo andar de mãos dadas, pois qualquer envolvimento físico poderia prejudicar a saúde de ambos.

Já dá para perceber, portanto, que o roteiro emprega uma série de clichês, situações batidas e conflitos artificiais, obviamente pensando em levar o público às lágrimas constantes – e se isto não acontece, é porque o filme falha em convencer o espectador de que os dramas retratados na tela foram construídos com sinceridade, soando excessivamente açucarado e meloso em seus esforços. Além disso, “A Cinco Passos de Você” ainda enfrenta um problema aparentemente incontornável: se o casal que protagoniza a história passa a maior parte do tempo sem poder se aproximar, isto acaba limitando a quantidade de cenas que tragam os dois contracenando, o que enfraquece a dinâmica entre eles (não é surpresa que a primeira metade da projeção seja tão entediante, pois há uma demora notável até que Stela e Will finalmente se encontrem). E se a ideia de incluir um jovem gay na trama é admirável, o resultado decepciona ao desenvolver este personagem de maneira terrivelmente superficial.

Em compensação, o trabalho do diretor Justin Baldoni se sai razoavelmente bem ao envolver o espectador em uma narrativa que, por mais batida e novelesca que seja, mostra-se capaz de criar um ou outro momento dramático mais eficaz – e o desfecho, em particular, surpreende ao construir uma situação triste de maneira suficientemente sincera e ao evitar, na medida do possível, as armadilhas que costumam ser oferecidas nessas circunstâncias. Para completar, é importante reconhecer que “A Cinco Passos de Você” revela boas intenções ao dar voz às vítimas da fibrose cística, abrindo a projeção com uma narração em off que enfatiza a importância de demonstrar amor através do toque e encerrando o filme complementando a ideia que havia sido esclarecida no começo.

Por outro lado, há sempre o roteiro fraco que faz questão de puxar tudo para baixo – e ainda que Baldoni se esforce, o cineasta não consegue retratar algumas situações sem sucumbir à artificialidade, chegando a um inevitável momento onde o casal resolve caminhar num parque e se deitar na neve (nem preciso dizer que Stela faz um “anjo de neve”, certo?). Já as atuações centrais se restringem ao lugar-comum: não dá para dizer, sinceramente, que Haley Lu Richardson e Cole Sprouse tenham maus desempenhos, já que ambos encarnam os conflitos e as dores internas dos personagens de forma correta e dolorida; por outro lado, Stela e Will não são particularmente expressivos ou contagiantes em suas personalidades individuais, o que acaba pesando para os dois atores.

Inconstante em suas tentativas de humor (a maioria das piadinhas poderia ser descartada sem problema algum), “A Cinco Passos de Você” é uma obra essencialmente melosa, mas que se esforça de vez em quando para contornar esta fragilidade. Às vezes, até consegue – na maior parte do tempo, porém, é uma young adult novel como muitas das que já foram adaptadas para o Cinema.

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