Os Relatórios de Sarah e Saleem

Uma argamassa moral

Por Vitor Velloso

Reserva Imovision

“Os Relatórios de Sarah e Saleem” de Muayad Alayan é mais um longa que chega nas plataformas brasileiras para cumprir uma demanda digital. O filme é uma costura complexa entre o relacionamento de um palestino e uma judia que trabalha em um café em Jerusalém. Por si só, a trama já poderia abordar uma gama de conflitos políticos e religiosos em frentes diversas, mas a narrativa percorre um jogo moral ainda mais denso ao confrontar o relacionamento extraconjugal com uma intriga do Estado de maneira direta.

Aqui, a linguagem procura uma funcionalidade diferente do pragmatismo industrial, transmite a paciência na construção e um rigor que reforça a cautela na abordagem dessa moral que sempre está em cheque. Há um processo de dissolução de determinismos ocidentais e uma diretriz que se articula a favor dessa lentidão inflamável, procurando um clímax que não seja capaz de despejar uma fórmula dramática pré-estabelecida, mas uma redenção particular das personagens. Não à toa, o julgamento se dá em múltiplas faces e essa moral se dissolve com as instituições que são afetadas pelo conflito. Do casamento ao exército, de um neoliberalismo que demite o empregado que sofreu uma tortura no dia anterior à própria resolução de justiça. Nada está fora do espectro que “Os Relatórios de Sarah e Saleem” abrange em quadros largos que apenas se aproximam dos personagens com os limites da dignidade. Onde a sociedade é um sistema que está entre o orgulho e uma volatilidade que é materializada pela história e seus conflitos. 

O esvaziamento em determinados propósitos, é comparativo da decadência de uma idealização apaziguadora. E isso não significa a compreensão de uma série de vítimas. Tomaz Tadeu compreende a identidade a partir da própria diferença, a reafirmação de algo a partir do “eu sou” é o proporcional ao “não sou”. Assim, um suposto “Estado” ao direcionar um debate moral à sua particular frente política de alianças burguesas com a ampla capitalização estrangeira, estará em constante opressão rigorosa aos próprios habitantes, reforçando que essa questão da identidade é uma formalização de suas fragilidades. Não por acaso, o agente do Estado toma atitudes vexaminosas diante de sua tentativa de manter a normalidade diante de um caso extraconjugal. O ego ferido representa esse desenho fálico de uma farsa que não pode ser compreendida à distância cultural. O materialismo aqui, é uma explicitação desse caráter sectário, onde as classes se expõem na relação desses poderes, na consciência deles e na pergunta dolorosa próxima ao fim da projeção “Você está com problemas financeiros?”. 

Não é uma reconciliação, mas uma forçada assimilação a partir de um patriarcalismo que entra em crise a partir da própria decadência do capital. Orochi define a falta de resolução prática com “Não é porque nós é humilde que nós ‘quer’ fazer as pazes”. “Os Relatórios de Sarah e Saleem” não ensaia tantos discursos idealistas, apesar de flertes, pois compreende que essa imagem final não é uma espontaneidade, mas uma mútua presença diante da “justiça”, por motivos diametralmente divergentes. Uma para poder viver, outra limpar a consciência. O longa é sagaz ao transitar entre o “pano de fundo” e a primazia desse nervo político para um primeiro plano e a própria cadência da narrativa. Essa troca constante na abordagem, refletida em uma linguagem que apesar do rigor, faz da perspectiva um jogo situacional, sempre assombrado por um conflito que não se materializa na tela, mas em todos os cantos de um quadro geral. 

Se “a filosofia é sempre um canteiro de obras, nunca uma casa”, o filme de Alayan trata do conflito como o cimento que sustenta uma ideia de identidade onde não existe resolução para o problema, mas existem as perspectivas que concretiza as razões de cada um nesse complexo conflito. A mulher é um centro particular em “Os Relatórios de Sarah e Saleem” e a forma reflete isso a partir de uma montagem que não dinamiza essas representações, mas sustenta o tempo em espaços que a objetiva reforçou ao longo da projeção. 

Onde a imagem final se torna ambígua, o criacionismo cai por terra em seu estruturalismo fajuto e a forma direciona o pensamento de maneira clara.

Trailer

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