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O Reflexo do Lago

Observação e inércia

Por Vitor Velloso

Durante o Olhar de Cinema 2020

“O Reflexo do Lago” de Fernando Segtowick é uma obra que compreende a Amazônia como a entidade que é. Uma projeção, hoje, falha, de um Brasil que se mantém atravessado pela História e pelas pessoas que a compõe. Sem parâmetros imediatos, o filme se vê construindo o tempo inteiro uma imagem e imaginário do que a Amazônia representa enquanto esse monumento que Vargas quis “domar”, ou que o Bolsonaro deseja destruir. 

A grande questão do longa está em sua abordagem. Aqui, a fotografia p&b torna-se a opção escolhida. Está claro que há imagens belíssimas apresentadas por conta de tal decisão, mas perde-se muito do espírito da Amazônia ao retirar as cores que tanto à representam. É possível enxergar o registro como um olhar fatalista e derrotista em torno das discussões políticas que são ali postas, mas torna o “filme-processo”, algo que mantém-se no campo do registro e do documento, uma experiência de produção cinematográfica. Com excessivas parábolas em torno do objetivo central do filme. Não à toa, as pessoas aparecem sempre em segundo plano, recusando à escuta constante dos residentes. É uma espécie de situacionismo imediatista Videliano, sempre retomando ao contorno observacional. O que torna boa parte do debate, uma via de mão única sem recorrências materiais de um dos processos culturais, econômicos e ambientais, mais violentos da História desse país. 

“O Reflexo do Lago” é primoroso esteticamente, mas não consegue assimilar o espírito que transpõe à imagem, com a base da região. As pessoas se tornam objeto de observação, da mesma maneira que a floresta. É uma uniformização, orgânica, semi-liberal, com o perdão do eufemismo. Pois nenhuma das problemáticas causadas pela usina, são transportadas à tela com a devida importância que há no Brasil. Essa parábola que a obra cria para criar uma experiência estetizante, ainda se vê atravessada por um filtro preto e branco, mirando uma espécie de contemplação intermediada pela objetiva cinematográfica. Assim, acaba definhando em uma possibilidade antropológica, imagética e didática. Ao fim da exibição do documentário, o espectador se pergunta qual era o eixo motor de tudo aquilo. Seria uma espécie de desejo particular de produção? Seria uma exposição mais próxima dessas bases econômicas e políticas da população, mas sem trabalhar um olhar crítico em torno dos processos que tornaram a realidade como nós a conhecemos. 

E é por isso que o devaneio se torna uma possibilidade durante os oitenta minutos, pois as imagens vão se somando, as breves entrevistas se fazem insuficientes, a construção de uma análise vira um sonho perdido e as questões das usinas são tratadas esporadicamente em discursos absolutamente desprendidos. Propagandas e imagens de arquivo que compõem “O Reflexo do Lago” adicionam apenas uma perspectiva do Estado no momento de sua construção, assim como a brevíssima explicação das “riquezas” do solo. Com isso, fica claro que o filme busca uma base exterior à sua, onde o espectador irá ao deleite do onírico plástico, trazendo consigo uma base política, social e econômica que irá permear seu olhar diante da Amazônia. Acontece o contrário, a perde de interesse se torna latente e o tempo dilatado vira hipnose de inércia. Sem grandes reformulações nas crenças atuais em torno dos impactos ambientais e sociais que ali acontecem, o discurso é diluído nessa projeção de idealização. Não chega a ser absolutamente alienante pois reconhece ali, no solo, o palco dessas discussões, mas não leva a cabo nenhuma dessas frentes possíveis. 

É o que torna a experiência tão frágil, pois essas impossibilidades de reconhecimento através do olhar observador, cria becos sem saída para a experiência alienante e acrítica. Por fim, o longa não consegue se distanciar dessa fórmula e padronização estética e acaba fluindo como uma anestesia diante do caos e da destruição que vivemos. É uma consequência direta da perspectiva que é dada no mundo contemporâneo, onde resoluções tornam-se questões de segundo plano e a observação é a frente do monumento inerte. 

Sem grandes questões trabalhadas “O Reflexo do Lago” acaba sendo uma dose de rivotril e mantém o status do pragmatismo no debate, onde o didatismo é consumido pela dialética, mas é diluído na prática estetizante, 

Trailer

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