O Pequeno Nicolau

O típico exagero da imaginação infantil

Por Fabricio Duque

Quando se é adulto, uma única ação não realizada e ou atrapalhada é a gota d’água ao estágio de desespero. Preste atenção ao meu caso. A opinião deste filme, “O Pequeno Nicolau”,  já era para ter ficado pronta semanas atrás. Por duas vezes eu escrevi o texto e por duas vezes o universo conspirou contra a feitura dessas palavras. Esquecimento de salvar o documento, logo após o computador travar. E queda de luz, sem novamente eu ter realizado o salvamento. No momento, escrevo pela terceira vez e a vida mostrou a mim que devo realizar a operação de salvar, de dois em dois segundos. Desta vez, competirei com o mundo paralelo de não opiniões. Neste aspecto sou uma criança grande. Não desisto tão facilmente. É claro que o recomeço demora um pouco mais quando se é maduro. Que paradoxo! Mas a luta continua e a opinião acontecerá. Pausa para salvar o documento.

Ser criança é não ter o total entendimento sobre as coisas. Buscam-se respostas. Questiona-se a definição do que se é e do que se tem. Os adultos, complicados em suas ideias e características, vivem a frustração e a melancolia do não retorno à época dos pequenos. A maturidade necessita ser esperta, alerta e defensiva, em contra posição à ingenuidade e ao sentimento de que tudo pode, frutos da pureza e da falta de saber das maldades do mundo. A infância traduz as características naturais, diretas e inerentes de cada ser desta idade. Há a crueldade nata, que se obtém pelo não conhecimento mundano. Quando o crescimento acontece, isso é mascarado por convenções sociais e regras do politicamente correto. Descobre-se que não se pode dizer tudo e ou perguntar tudo. Há limites para uma respeitável convivência com o próximo. É a conveniência do tratamento. Aprende-se a manipulação estratégica tendo como preço a simplicidade de uma era infantil.

“Decapitado? Ser expulso da capital”, diz-se fornecendo ao espectador o tom que a trama apresentará. Os pequenos utilizam a lógica para entender palavras e o próprio mundo, algo novo e complicado demais para eles. As personagens de “O Pequeno Nicolau” são definidos como tipos humanizados. Não se critica, apenas retrata o que cada um é. Há o menino que possui dificuldade de aprendizado. Outro que responde rapidamente as perguntas. Há também o valentão. Há tipos clichês, porém são abordados sem o óbvio patético, extraindo a essência intrínseca.

Baseado na história infantil homônima francesa, “O Pequeno Nicolau” transpassa os quadrinhos à tela do cinema. A narração, pela visão do protagonista, aprofunda com humor equilibrado. Não há a tentativa de exceder a graça. “Boletim não é divertido para ninguém”, diz-se. As cores fornecem ao espectador um conto lírico e fantasioso, mostrando com precisão as viagens imaginárias de seus personagens. Nicolas absorve conhecimentos. Ele tenta entender as manias dos pais, as suas próprias, a de seus amigos. O pequeno vê o que acha que está vendo. Para a formação desse saber, ele busca aceitar ideias próximas como se fossem suas. E perde-se na própria epifania infantil. Se o pai trata a mãe com carinho, ele logo pensa “Minha mãe vai ter um irmãozinho”, porque foi assim que aconteceu com seu colega de escola.

A música de efeito em “O Pequeno Nicolau” direciona quem está do outro lado da tela a reviver os momentos simples e puros. A nostalgia é certeira quando se assiste a cena que Nicolas agrada a mãe por medo de ser abandonado na floresta. Infere-se, bem de leve, ao universo de Guilhermo del Toro e seu “Labirinto do Fauno”, porém em gênero comédia de situações.

O exagero da imaginação, transformado em elemento para contar a história, é perfeitamente aceitável por ser real. Por existir. Crianças possuem o surrealismo como aliado. Há o medo (do abandono) e a vulnerabilidade (fugir de casa, dar a volta no quarteirão e retornar) também. As situações extremadas são necessárias para definir o que se mostra. A infância peca pelo exagero. Tudo é mais do que deveria ser. “Esses alunos precisam relaxar”, diz-se. “A vida continua”, filosofa e segue-se em frente de forma quase instantânea. Os conflitos infantis são resolvidos e trabalhados na cabeça dos pequenos como uma simples troca de roupa suja.

O objetivo deles é só um. “Fazer as pessoas rirem quando eu crescer”, finaliza-se. Mas quando se cresce, a percepção muda, o individualismo acomete a alma e a sobrevivência social realiza o processo de fechamento dentro de cada um. Briga-se todo o tempo entre a infância, a maturidade e a velhice. “O Pequeno Nicolau” vale muito a pena ser visto. As interpretações convencem e emocionam. A fotografia ensolarada traduz a nostalgia dessa época. Há a professora da escola, interpretada por Sandrine Kiberlain, que já realizou um espetacular papel em “Mademoiselle Chambon“. Recomendo.

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