O Monopólio da Violência

Enquanto isso, nos trópicos...

Por Vitor Velloso

Durante a Mostra CineBH 2021

“O Monopólio da Violência” de David Dufresne auxilia a discutir parte da própria temática da CineBH, em especial a partir da ideia de que é possível combater o poder com a utilização de imagens que auxiliam em uma “contravigilância”. Da mesma forma que algumas falas do documentário costuram a falta de efeito prático na captura e divulgação dessas imagens (os excessos policiais, neste caso), falar de “contravigilância” possui um efeito parcial e que não sobrevive à prática.

De maneira imediata, é perceptível que o debate em torno do termo amplamente divulgado que dá título ao filme, se sustenta nas repressões aos manifestantes franceses, conhecidos como “coletes amarelos”. O caso brasileiro é bastante distinto e pouco comparável, já que essa violência é institucionalizada, o massacre é cotidiano e o resultado da divulgação dos registros que mostram os abusos policiais raramente podem ser vinculados à palavra justiça. No caso latino-americano, a própria concepção do que é o Estado se diferencia dos países europeus e falar de “legitimidade” e “legalidade” chega a ser uma repetição histórica quase falida. O que pode chamar atenção, em um primeiro momento, em “O Monopólio da Violência” é que a suposta pluralidade nos depoimentos, que chega a ceder tempo de projeção à um policial reacionário (pouco controlado), é uma reprodução integral de um intelectualismo discursivo eurocêntrico. Apesar de algumas falas serem interessantes na maneira como relativiza os discursos midiáticos, a construção não consegue se diferenciar de uma exposição que procura encerrar o assunto a partir da: exibição, depoimento, leitura de uma citação, material de arquivo exibido novamente.

É uma esquemática que possui seus méritos, já que é capaz de colocar a imagem projetada diante do entrevistado e filma suas reações no momento. Há uma tendência de formar “duplas”, para que o diálogo possa acontecer “sem a mediação da montagem”. Porém, de Rousseau à Arco do Triunfo, a cultura francesa não é colocada em cheque na formação do que boa parte das pessoas denunciam como uma “violência histórica”, e não ocasional. Pelo contrário, há uma forte tendência de procurar nesses eventos, uma representação na figura do presidente. Quando uma senhora diz que a democracia não é o consenso, sim o dissenso, mesmo que possamos concordar com a teoria, devemos analisar a construção histórica do próprio modelo político que está sempre colocado em xeque, até mesmo no título do documentário que assume a famosa expressão que denuncia o uso da violência do Estado. A democracia é um aparato complexo utilizado para garantir a perpetuação das classes dominantes no poder, o consenso é ferramenta fundamental na construção do que poderíamos chamar de “opinião pública” e “cultura popular” para o funcionamento da própria idealização do que seria a “democracia plena”. Assim, a maioria dos depoimentos partem para as denúncias rasteiras, apontando o dedo para Macron (e todos os seus deslizes assombrosos) como uma figura que está “desmoralizando a França internacionalmente”.

Algumas imagens exibidas em “O Monopólio da Violência” podem ser chocantes e utilizadas em debates de maneira mais densa, mas são pouco úteis na compreensão da situação latino-americana. Até mesmo por algo que o Paulo Tavares comentou no debate temático inaugural, que falou quem detém não apenas o monopólio da vigilância, mas tecnológica também. E neste ponto, a dependência tecnológica brasileira é um ponto fundamental para se discutir, caso o diálogo queira sair da superficialidade.

Apesar dos relativos méritos do documentário francês, existe uma certa suspensão crítica do próprio pensamento, que não se permite confrontar o exterior. Quando o faz, há um relativismo conceitual que gera alguns preconceitos explícitos. Por mais que acredite estar saindo da mera denúncia moral da violência policial, quando necessita debater a formação dessa violência de maneira institucional, necessitando confrontar com a democracia em si, apela-se para as figuras decadentes de uma “Revolução” burguesa que marca suas expressões até os dias de hoje. E a própria ideia de democracia, retorna ao consenso que pode até apelar para Pasolini na discussão, mas morre nos totens franceses de sempre.

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