O Mauritano

Quebrando o silêncio dos inocentes

Por Fabricio Duque

Durante o Festival de Berlim 2021

Tahar Rahim, em “O Profeta”, de Jacques Audiard, foi projetado ao mundo, especialmente pelo filme integrar a competição oficial a Palma de Ouro do Festival de Cannes 2009. O ator francês (de descendência argelina) vivenciou seu primeiro protagonista, um jovem argelino enviado a uma prisão francesa. Em 2021, Tahar “volta à prisão” no longa-metragem “O Mauritano”, do diretor britânico Kevin Macdonald, interpretando o mauritano Mohamedou Ould Slahi, capturado pelo governo dos Estados Unidos e é “deixado”, sem acusações ou julgamento, na prisão de Guantánamo, em Cuba, “que está fora da jurisdição americana”. Adaptado da história real “O Diário de Guantanamo”, escrito por Mohamedou, “O Mauritano” pretende mais ser um histórico-pessoal documento ficcional que propriamente uma obra-prima do cinema, visto que sua narrativa busca a montagem aos moldes do seriado “Homeland” com suas características típicas de um filme de ação e seus comportamentos agressivos perante o ambiente presidiário, como se os guardas fossem “máquinas mortíferas”. Pois é, nós espectadores nos perguntamos se esta estrutura truculenta de roteiro óbvio ainda vende? E o porque de ser tão repetida? Um que de “Os Últimos Passos de um Homem” e/ou “Luta por Justiça”.

O longa-metragem, exibido fora de competição na edição online do Festival de Berlim 2021, quer também se traduzir como um filme quebra-cabeças, intercalando ações de personagens, em seus diferentes núcleos, para costurar a trama. De um lado, Mohamedou. Do outro, a advogada Nancy Hollander (Jodie Foster, que por este papel venceu o Globo de Ouro de Melhor Atriz, também volta à prisão depois de trinta anos, após “O Silêncio dos Inocentes”). “O Mauritano” segue corroborando a fragilidade de seu roteiro facilitador (que tenta porque tenta forçar o tom natural), de Michael Bronner (jornalista e co-produtor de “Capitão Phillips”), Rory Haines e Sohrab Noshirvani (ambos estreantes no cinema), pululado de gatilhos comuns (por exemplo, em relação à língua estrangeira – que a assistente do nada começa a falar francês – e o preconceito inicial de “como é que você aprendeu o inglês?”, ele responde “uma palavra depois da outra”, e/ou expressões idiomáticas, como “See you later, alligator”, música de Bill Haley and Comets, e/ou a referência ao soldado G.I. Joe).

Sim, sabemos que “O Mauritano” precisa se construir pelo elemento pessoal, que advém de uma emocional memória subjetiva (sentida por muito tempo, muita burocracia, muito descaso e muitas regras impeditivas para sua liberdade), mas também temos a exata noção de que seu resultado exige um aprofundamento e não só uma plástica aparente. Assim, o filme é quase obrigado a trazer a tona a simplificação dessas lembranças, como se utilizar do artifício da digressão (de como foi parar na prisão, as torturas, sadismo, alucinações, paranoia, as interrogações), tudo por uma tela pequena à base de um arquivo documental reconstituído. Mistura-se perspectivas. Dele e da infância. Da advogada e sua imaginação projetada (que ainda precisa transpor a agressividade dos outros por estar “defendendo um terrorista”). E da assistente sentimental (passional e “conservadora” – “emoções demais” de uma Geração Nutella do agora, que monopoliza atenções com egoísmo cringe) demais para lidar com o pragmatismo da profissão. Ao abrir a opção confortável da “Caixa de Pandora”, as descobertas ficam mais clichês (como a música de Natal para mostrar que é dezembro). Sim, Guantánamo é tratado como um “hotel cinco estrelas” em que até os guardas riem e o tratam bem. Estranho, já que a história mostra que a prisão foi considerada uma das mais desumanas e degradantes do mundo. Será que foi porque ele assinou um termo de culpa? Será uma crítica amenizada aos americanos que sempre conseguem o que quer pela força e pela violência, sem humanidade?

Talvez o filme não pode, atualmente, atravessar os limites impostos pela Indústria do Cinema. É preciso humanizar com romantização. Mas isso é praticamente um tiro no pé à liberdade criativa. Cada vez o roteiro expande mais sua fragilidade. Pela ingenuidade. “Você deveria escrever um livro”. “Sim, escreverei agora”. E em 2009, “finalmente um julgamento decente”. E aí para fechar com “chave de ouro”, o discurso mais sentimental (brega, mesmo), de efeito para manipular emoção de todos, que o “redime” quando “joga a culpa em seu país” e à favor das “leis americanas, maravilhosas e perfeitas. Mais uma vitória a América? E assim “O Mauritano” ganha sua redenção após quatorze anos e dois meses. O perdão incondicional e a mensagem “que acredita na justiça e na lei dos Estados Unidos, não no medo. O final do filme conta com as imagens reais de Mohamedou, solto e chegando a Mauritânia, que ganhou até música-tema de Bob Dylan. E a advogada quebrou o “silêncio dos inocentes”. E nós, o público, impotente às escolhas banais da narrativa do filme, no meio disso tudo.

Trailer

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