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Crítica: O Profeta

Ficha Técnica

Direção: Jacques Audiard
Roteiro: Thomas Bidegain e Jacques Audiard, baseado em uma ideia original de Abdel Raouf Dafri
Elenco: Tahar Rahim, Niels Arestrup, Adel Bencherif, Reda Kateb, Hichem Yacoubi, Jean-Philippe Ricci, Gilles Cohen, Antoine Basler, Leïla Bekhti, Pierre Leccia, Foued Nassah, Jean-Emmanuel Pagni,
Frederic Graziani, Slimane Dazi
Fotografia: Stéphane Fontaine (a.f.c)
Montagem: Juliette Welfling
Trilha Sonora: Alexandre Desplat
Direção de arte: Michel Barthélemy (a.d.c)
Som: Brigitte taillandier, Francis Wargnier, Jean-Paul Hurier, Marc Doisne
Figurino: Virginie Montel
Casting: Richard Rousseau
Continuista: Nathalie Vierny
Produtor: Martine Cassinelli
Duração: 149 minutos
País: França
Ano: 2009
COTAÇÃO: ENTRE O MUITO BOM E O EXCELENTE

A opinião

Quando um indivíduo comete delitos e extrapola as regras da sociedade, ele precisa ser punido. A prisão desempenha esse papel. O de reformar e consertar os erros. As leis punitivas, com seus juízes togados, que decidem por conveniência e razoabilidade, atendem coletivamente. Porém, o objetivo não é almejado. Pelo contrário, é deturpado e funciona como uma escola às avessas. Há questionamentos. Se juntarmos criminosos dentro de um determinado lugar pequeno, fechado e com tempo de sobra, resolve-se a má índole, cura-se o espírito?

Condenado a seis anos de prisão, Malik El Djebena (Tahar Rahim, ator na série La Commune para o Canal + dirigido por Philippe Triboit), meio árabe, meio córsico, é analfabeto. Ao chegar à prisão, totalmente sozinho, ele parece mais jovem e mais frágil do que os outros presos. Ele está com 19 anos. O líder da facção dos córsicos dá a Malik uma série de “missões” a serem cumpridas. Ele aprende rápido e se fortalece, ganhando a confiança do chefe da facção. Malik usa toda a sua inteligência para desenvolver discretamente o seu plano.

A camera, amadora, observadora, retrata, mas não mostra tudo da imagem. É intimista. Há sombras e reflexos. Há closes. Com isso, o espectador participa do momento. É como se estivesse tão perto que pudesse ajudar. A vida de uma prisão, com seu cotidiano, pela visão do protagonista. O que se vê é a realidade, na sua mais perfeita crueldade natural, que vivencia ao pé da letra a Lei de Darwin, que diz que só os mais fortes, sobrevivem. É a lei da selva: instintiva, necessária e marcadora de território.

Será que a prisão é o melhor meio para ‘educar’ a violência e acalentar a alma? A pergunta retórica já diz que não. O próprio meio influencia e manipula pessoas a seu redor, mesmo sem o consentimento e vontade delas. “Acha que vai durar muito sem proteção?”, diz-se a um novato, perdido e que precisará matar para que não morra. Os esquemas aparecem. A escola inicia o seu curso intensivo. A proteção custa favores. Não há ninguém legal ou amigo. É cada um por si.

O novato é Malik. Ele possui a ingenuidade de quem está fora do ambiente disciplinar e não conhece as regras. Aprende que precisa chupar outro cara, esconder o gilete na boca. “Faz com vontade, senão não vai funcionar”, diz-se. O realismo violento faz parte e é primordial para a história. A trama utiliza a violência para realizar passagens de tempo e mostrar a transformação do nosso personagem principal. “Você pode sair melhor do que quando entrou aqui”, frase direta para resumir o que é realmente um presídio. Há preconceito e xiismo. “Logo vão trazer os tapetes.

Estão se multiplicando?”, sobre os muçulmanos. A música de Alexandre Desplat ameniza os acontecimentos e supre o silêncio do que se vê. A solução escolhida de Malik não foi só a escola. Ele queria a graduação. No cotidiano carcerário, aprende a ler, a escrever, trabalha para reduzir a pena. Torna-se empregado de um grupo, joga com outro e arquiteta contatos com um terceiro. Torna-se os olhos e os ouvidos do ‘chefe’ (detento poderoso) dos presos. Faz de tudo: limpeza, comida, lava e passa roupas. “Palavras machucam”, observa-se.

Malik deseja o controla do local.”Quando sair, farei o mesmo que aqui, só que maior”, diz um. “Ficar aqui é que é arriscado”, diz outro. Os fantasmas o atormentam e o salvam. É inevitável a referência que do espectador a filmes como “Estômago”, “O poderoso Chefão” e a série de televisão “Oz”. Há poesia quando ele sai (por bom comportamento ganha um dia fora da cadeia) da prisão. Tudo lá fora é diferente, distorcido e fora de foco. O sol e o vento no rosto, Bob Dylan. Os planos dele começam a dar resultados. Ele equipa a cela, vendo filmes pornôs e “007”.

Ele é um profeta moderno. Ele planeja e acredita que as coisas acontecerão. Não há nada a perder, então a crença em algo aumenta. Neste caso, nele mesmo. A cena de perceber que um animal aparecerá na estrada explicita o grau máximo de sua confiança. Ele viu a placa “Cuidado animais na pista”. Assim é respeitado. Ele passa 40 dias e 40 noites em uma solitária. É a metáfora da auto ajuda e da solidão para crescer. Ele crê em suas ideias, assim prevê acontecimentos.

Graduou-se com respeito. Usa, manipula, com carisma e ocupa mercado, dominando o que um dia era de outro. O “poderoso chefão” (o antigo) está sozinho. A inteligência venceu a força. Vale muito a pena ser visto. Realista, despretensioso, sombrio e com tudo isso há a esperança e mesmo com todas as mudanças, acreditamos no “profeta” e torcemos para que sobreviva. Recomendo.

O Diretor

Jacques Audiard nasceu em 30 de abril de 1952 e é filho do famoso roteirista e diretor Michel Audiard. Ele começou a sua carreira no cinema não como diretor ou roteirista, mas na sala de montagem. Foi a partir de 1980 que Audiard começou a participar da criação de roteiros para diretores como Georges Lautner (O Profissional – The Professional), Denys Granier-Deferre (Réveillon With Bobsled), Claude Miller (Mortal Hike), Jérôme Boivin (Baxter), Elisabeth Rappeneau (Frequency Murder) e Ariel Zeitoun (Saxo). Embora pareçam muito diferentes, esses filmes têm uma características em comum: uma atmosfera noire, um humor cáustico e deslocado e uma visão pessimista da condição humana. Audiard manteve este tipo de olhar pessimista ao dirigir o seu primeiro filme em 1994, Quando os Homens Caem (See How They Fall), com Mathieu Kassovitz e John Louis Trintignant. O filme foi agraciado com o Cesar de Melhor Filme. Seu terceiro filme, Em Meus Lábios (Read My Lips), foi indicado a 10 prêmios e agraciado com oito Cesar em 2001. Em seguida, ele dirigiu De Tanto Bater, Meu Coração Parou (De Battre Mon Coeur s¿est Arrêté) indicado para o Urso de Ouro no Festival de Berlin, quando estreou em 2005. Em seguida, ele dirigiu Um Profeta (Un Prophete), lançado no Festival de Cannes em 2009, onde recebeu o Grand Prix de Cannes.

Filmografia

2009 – Um Profeta
2004 – De Tanto Bater Meu Coração Parou
2001 – Em Meus Lábios
1996 – Um Herói Muito Discreto
1994 – Quando os Homens Caem

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