O Jardim Fantástico

Olhares plurais para o mundo brasileiro

Por Julhia Quadros

Kinoforum 2020

Exibido no Kinoforum – Festival Internacional de Curtas de São Paulo 2020, “Jardim Fantástico” (2020), dirigido por Fabio Baldo e Tico Dias é uma profusão de símbolos e ideologias culturais e étnicas do Brasil, que são explorados e transmitidos de uma forma bastante sensorial, em um filme construído através de uma linguagem poética, carregada de figuras de estilo, evidenciando esta brasilidade. Esta é transmitida com um tom fantástico, através do olhar infantil para o misticismo presente em nossa cultura, evocando uma beleza da tradição mitológica e a permanência de ideias e figuras, que nos acompanham desde a infância. Esta opção por uma linguagem que remeta à ancestralidade e conteúdos presentes desde a mais tenra idade é uma opção inteligente e curiosa para a narrativa, trazendo a subjetividade desta para um coletivo e não para um indivíduo específico, sem, porém, abordar o conteúdo de uma forma mais direta ou mais próximo dos padrões da Narrativa Clássica, corroborando com a opção de trazer o olhar para um grupo de crianças.

Com isto, o roteiro de Fabio Baldo chama a atenção para a abertura infantil e a capacidade de assimilar culturas, dogmas e elementos do folclore sem julgá-los ou condená-los, aceitando e compreendendo o espaço original de nosso país e as características dos povos que o habitavam; além disto o fato de a professora ser indígena constitui uma metáfora, posto que as crianças são de etnias diferentes e plurais, o que gera um pensamento sobre a presença de uma cultura original, uma terra anterior ao período colonial, que influenciou culturas diversas. Isto traz um tema bastante profundo e cheio de subdivisões com um olhar sensível e poético, quase como uma fábula, em que a metáfora da nossa História é representada como uma lição infantil. A sequência da palavra e os comentários das crianças ditos nos ouvidos umas das outras podem ser interpretados como transmissão de conteúdo e significado entre os povos e, até, mesmo, a criação do nosso idioma tal como é.

“Jardim Fantástico” nos leva a questionar o país em que estamos hoje e o resultado de anos de massacre e exploração dos povos indígenas e, também, nos convida a pensar nas origens e na ideia de passado e futuro, que a representação de crianças automaticamente transmite. Também, nos leva a observar o quanto das nossas origens não está presente em nós, ainda que de uma forma subconsciente, trazido pelos ancestrais e assimilado em momentos dos quais não mais nos lembramos hoje. A fotografia, de Ivan Rodrigues, com muitos planos detalhe e close-up evoca subjetividade, pessoalidade e interpretação mais individual, próxima ao poético, principalmente através dos planos de natureza ou dos detalhes dos rostos das crianças. Com estas metonímias, é possível ter um olhar extenso para o questionamento cultural presente no filme, sendo uma bela obra repleta de olhares atemporais para as características do Brasil enquanto país.

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