O Homem que Cuida

Clube dos Cinco Bachateiros

Por Jorge Cruz

O Homem que Cuida”, na tradução literal do espanhol, não contempla todo o poder semântico que amplia os olhares acerca do protagonista Juan (Héctor Aníbal). Sua imagem como caseiro de uma mansão em Palmar de Ocoa, cidade litorânea da República Dominicana deve ser interpretada à luz do conformismo, como se ele não se preocupasse, não “cuidasse” tanto de seus próprio problemas, indiferente à própria vida.

A estreia na direção de Alejandro Andújar, experiente roteirista dominicano, permite um trabalho que – dentro das limitações técnicas – se mostra acurado. Para que se fuja da protocolaridade que a narrativa linear naturalmente implica e de uma trama com poucos personagens, quase toda em apenas um ambiente, o cineasta tenta jogar os enquadramentos para que o olhar do espectador faça às vezes de Juan nos momentos mais importantes, se colocando acima de seu ombro; e desnudando os pensamentos do protagonista em outras oportunidades.

Esse propósito deve ser também creditado à atuação de Héctor Aníbal. A melancolia com a qual transita pelas cenas pode dar a entender que a defesa de seu personagem não é feita com ímpeto. Porém, o roteiro entrelaça essas intenções com diálogos e com músicas bachatas que nos aproximam desses sentimentos sem que as palavras conformismo e melancolia sejam explicitadas uma única vez. Ou seja, sempre que a câmera não mostra Juan, o espectador adivinha o que ele está sentindo, uma conclusão lógica sob a perspectiva do que foi construído nesse ínterim. As poucas intervenções da trilha de Omar Silva carregam uma depressão ainda maior, como se a sofrência das canções ouvidas pelos personagens soassem até mais alegres do que querem ser. Executados em violão, uma cadência carregada de tristeza.

Tratar de “O Homem que Cuida” sem mencionar duas personagens femininas se revela impossível. A primeira delas, María (Fiora Cruz) se apresenta logo no início. Ela é o gatilho da mudança (ou fim) de perspectiva de Juan. O relacionamento entre eles chega ao fim em virtude da traição dela, que agora está grávida de outro homem. Por sinal, a movimentação cadenciada da câmera, mostrando a barriga da personagem apenas ao término da cena, é muito bem construída. A mãe do protagonista, entretanto, parece mais abalada do que o filho, chegando a sugerir que ele matasse a moça. Essa cultura machista, baseada na honra unilateral, ao contrário do que antes se costumava fazer, não se ancora na figura do homem – e sim em outra personagem feminina. Seria muito ingênuo achar que Juan não resolveu bem esse término de relacionamento em sua cabeça, tanto que insiste em manter suas coisas na casa onde eles moravam. Ele apenas deixa em suspenso essa conjectura, uma vez que um pragmatismo apático lhe consome.

Juan leva como missão o trabalho como caseiro na casa de Don Víctor, deixando até mesmo o juízo de valor sobre María para depois. Diante disso, “O Homem que Cuida” avança para o foco da trama, com a chegada de Rich (Yasser Michelén), filho do dono da mansão, com mais um amigo e duas mulheres. Uma delas é Karen (Julietta Rodriguez), moradora da cidade, que aceita acompanhar aqueles homens para se aproximar um pouco da vida burguesa. O roteiro nesse ponto amplia suas percepções, saindo do jovem sem perspectivas detentor do olhar da câmera para diálogos de classe, cor e gênero – mesmo que de certa maneira tangenciados. 

Conclui-se ser Karen a segunda mulher fundamental para que o arco dramático em torno do protagonista seja eficiente. O uso dos corpos femininos por Rich e seu amigo Alex (Héctor Medina) não exige uma abordagem invasiva das personagens. Vale mencionar que o roteiro de “O Homem que Cuida” é uma parceria de Andújar com Amelia del Mar Hernandéz, olhar fundamental para uma representação mais fiel das mulheres. Montado de uma forma que exige atenção máxima do espectador, essa valorização da privacidade é bem-vinda. Não há porque cenas violentas ou sexuais ultrapassarem as intenções, já que Juan – o olhar do filme – não faz questão de convencer ninguém das suas. Até mesmo a raiva jogada contra ele vai se transformando em combustível para a resposta no mesmo pragmatismo com o qual ele coloca os colchões da casa do lado de fora para pegarem sol. 

Nesse conformismo de Juan, “O Homem que Cuida” se mostra um bom retrato das relações de classe e gênero. O protagonista sempre à margem, servindo de todas as formas os representantes da elite – sem se permitir participar, nem um pouco que seja e nem quando lhe é permitido. Mulheres tentando impor um mínimo de empoderamento no discurso, mas o tempo todo sofrendo ataques às suas honras e dignidades. No mais representantivo dos embates, que acontece na cozinha, Juan usa a dúvida acerca da paternidade como forma de ofensa, ao dizer para Belissa (Paula Ferry) que duvida que ela saiba quem é seu pai. Ao que ela o responde apenas dizendo a ele: “limpe isso”. Uma pirâmide de opressões, com relações de poder categorizadas.

Interessante como o filme concentra em Karen todas as punições possíveis, deixando Rich, o bom burguês, embebido em sua covardia. Ele veio ao mundo para ser servido, independente da crise. Se der errado, basta correr para a o colo do papai. Claro que a elite sempre reverterá o problema a seu favor, já que capitalizar é sua palavra de ordem. Da mesma forma que para o proletariado, a rotina também pouco muda. Nessa melancolia, o ato final se aproxima da grande inspiração do diretor, o iraniano Abbas Kiarostami. São poucos os que, de fato, mudam alguma coisa no breve recorte de uma obra cinematográfica. Nem Juan e nem Rich conseguem alcançar seus objetivos, pelo simples fato de que não sabem o que procurar.

Talvez Andújar não se dê conta que esses contatos acidentais dos cinco personagens que cirandam por “O Homem que Cuida” o aproxime mais da fase mexicana de Alejandro González Iñárritu, trazendo informações que explicam o que já passou quando aquilo já não importa tanto. Um cinema que não quer perder tempo com contemplação, mas ambientado em uma sociedade tão apática, se entende como uma obra pautada pela letargia.

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