O Conto das Três Irmãs

Foi Apenas um Sonho

Por Laisa Lima

Se há uma inspiração mais latente para o cinema do que o teatro, possivelmente esta é desconhecida. De Franco Zeffirelli em 1968 com “Romeu e Julieta” de William Shakeaspere, até “Moonlight” (2016), de Barry Jenkis, inspirado em um espetáculo autobiográfico de Tarell Alvin MCraney; as peças, se bem representadas, como nestes exemplos, são incipientes de grandes histórias. Com a vantagem de abrangerem todo o globo – culturalmente e espacialmente falando –, a criação de obras dramatúrgicas oferecem uma visão de mundo, que por meio de quem contará as histórias, pode ser livremente transmutada para a realidade dentro da tela. Em “O Conto das Três Irmãs” (2019), Emin Alper leva aos espectadores a realidade concebida a partir da mente do escritor russo Anton Tchekhov, mas a revivendo, desta vez, na Turquia.

O Conta das Três Irmãs” disserta sobre três jovens irmãs, que em um vilarejo da Península Anatólia, acabam devolvidas a seu pai por uma rica família pela qual foram trabalhar como domésticas. As meninas, então, almejam um futuro melhor, assim como Sevket (Müfit Kayacan), o pai, busca alternativas de dá-las a chance de ter um crescimento em suas vidas, mesmo que isto acarrete na separação da família. Assim, a história ultrapassa o bem estar próprio dos indivíduos envolvidos a favor de um anseio maior: a saída de uma existência insatisfatória fincada em um único local, como se as oportunidades de melhoria na vida dos personagens estivessem entrelaçadas ao povoado.

Iluminado quase sempre por luzes de fogo ou lamparina, a área em que vivem o trio de imãs nada remete ao século 21 e sua modernidade. Utilizando da rústica atmosfera do lugar onde vive-se sem energia elétrica e com preconceitos já ultrapassados, tais quais o determinado papel da mulher na sociedade como procriadora ou empregada; é um reforçador da necessidade das jovens em buscarem fora do vilarejo, uma entrada para maiores diversificações nos rumos de suas vidas. Durante a estadia do público em Anatólia, o gélido local de “O Conto das Três Irmãs” parece menor do que é se analisado as ambições e personalidades dos protagonistas, que possuem na dificuldade em suas convivências, um pretexto para a vontade de expandir seus horizontes e se tornarem parte de uma civilização que quase não é reconhecida na localidade ainda precária em que residem.

Tendo em Reyhan (Cemre Ebüzziya) a primogênita e mãe de um bebê, uma maturidade e um cuidado observado até em seu plano de fuga para a cidade; em Havva (Helin Kandemir), a mais nova das irmãs, o já aflorado não pertencimento que se manifesta em seu esforço de ser a mais prendada possível para ser levada de volta pela família que a rejeitou e sair de Anatólia; e em Nurhan (Ece Yüksel), a rebeldia já esperada diante do enquadramento físico, geográfico e mental atribuído ao vilarejo. As motivações e opiniões das jovens tornam-se plausíveis mediante longos diálogos que expõem até os pensamentos mais triviais das três, como suas relações com a sexualidade. Para abordar ainda mais a versatilidade da questão do escape para uma localidade urbana, Veysel (Kayhan Açikgöz), marido de Reynan, transparece um lado mais desesperado e impositor para a realização de tal propósito, enquanto o pai das meninas, Sevket (Müfit Kayacan), apresenta uma preocupação com o futuro das filhas, e com o seu igualmente.

Para a criação deste mix de personalidades, Emin Alper não poupou recursos para enaltecer o que a cidade grande significa para os personagens e para “O Conto das Três Irmãs”, seja a personificando em Sr. Necati (Kubilay Tunçer), da família que “cuidou” as irmãs, ou seja por meio do carro deste mesmo homem, que com a câmera por dentro do veículo, se move pela estrada ao mesmo passo que o público se afasta ou se aproxima do vilarejo. A transformação do clima do povoado, em certo momento da trama, e a valorização do ambiente natural, ao invés de ser chamativo pela beleza do local e seus relevos, emite-se de uma maneira que ao mesmo tempo que é natural ao priorizar a iluminação do próprio lugar, é sufocante se vista a partir dos arredores que a compõem, como a situação de infelicidade dos próprios protagonistas e até a própria conturbada relação das irmãs. Entretanto, ao destacar as sensações de cada um, pode se tornar maçante a espera de um clímax, que possui nos diálogos detalhados, também uma caracterização para a espera de um ápice que é possivelmente decepcionante e tardio.

O Conto das Três Irmãs” é uma fábula humana. Para sair do local em que vivem, os personagens usufruem dos meios que conseguem obter, por mais que não sejam convencionais. O filme se divide entre a exposição das emoções de todos e a ocorrência de impossibilidades para a concretização de seus desejos básicos: a saída de uma realidade empedrada, cheia de fronteiras e sem nenhum destino satisfatório. Contudo, apesar da boa interpretação dos envolvidos, o excesso de explicações é capaz de ser compreendido como cansativo, já que a realização de algo falado durante todo longa metragem – a tal fuga – pouco é efetivado. Por se dispor de uma bela fotografia e de temáticas envolvendo desde o local de homens e mulheres na sociedade (pré-estabelecidos), até a cultura vigente, mas ainda sim tendo algumas frustrações de materialização durante os atos; a película ensina que na Turquia ou em qualquer lugar, a ligação com as pessoas a sua volta não é suficiente para quem se sente preso.

Trailer

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