A Árvore dos Frutos Selvagens | Crítica

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Um coloquial, naturalista e poético épico de um volta

Por Fabricio Duque

Durante o Festival de Cannes 2018

Assistir a cada nova obra cinematográfica do turco Nuri Bilge Ceylan é receber uma completa análise antropológica da essência humana, quando conversas e silêncios são contemplados para traduzir desejos, vontades, provocações e ou apenas projeções soltas e vagas, muitas das vezes provenientes do tédio do equilíbrio do existir. É um exercício filosófico porque nos mostra que o indivíduo social é estimulado pelo movimento da própria vida e que se estagnado liberta frustrações e resignações.

Exibido na mostra competitiva oficial a Palma de Ouro do Festival de Cannes 2018, “A Árvore dos Frutos Selvagens” é sobre o sentimento mais puro e primitivo do verdadeiro querer do ser humano, que convive em condicionadas zonas de conforto; precisa lidar com as iminentes, urgentes e decisivas mudanças; e aceitar que há sentimentos e deveres que não podem ser reconstruídos.

Em um pouco mais de três horas de duração, o longa-metragem consegue suspender o tempo narrativo para que assim possa ser possível uma maior integração e imersão. O espectador caminha junto nas dúvidas, conflitos, fragilidades, orgulhos, impulsos e dramas de suas personagens, principalmente de seu protagonista Sinan (o ator Doğu Demirkol), cuja jornada necessita escolher entre sonho e realidade. Ler ou ser lido. Readaptar-se ou continuar rústico e selvagem. Graduação versus a vida real. “Sem dinheiro, sem vida”, diz-se.

“A Árvore dos Frutos Selvagens” é um filme de sensação pela contemplação da imagem, como reflexos; a cor particular de um fim de noite (e ou a poesia da luz da cor das amoras); e as tomadas aéreas que ambientam e criticam ao mesmo tempo (o lixo na beira das estradas). E os diálogos que explicitam outra vertente típica comportamental: a da naturalidade cúmplice e recíproca de se falar como se estivesse brigando, implicando e discutindo o tempo todo.

Neste, a narrativa está mais rápida, mais urgente, mais acompanhante, mais orgânica e menos contemplativa, intercalando metalinguagem quando a televisão é a própria câmera. As personagens olham para o público e dizem o que precisam dizer em diálogos quase monólogos estendidos sem a preocupação do corte (campo acelerado). Cada um ali imprime sua pessoal intimidade, trocando picardias (sarros) e ingênuas provocações (igual a inocentes Bullying). Nosso protagonista “não é mais o sapo dali”.

Sinan retorna ao vilarejo em que nasceu, mas não é mais dali. Tudo soa mais artificial e como memórias contadas (que serão usadas no livro de forma dramatizada e em ficções por confissões), objetivo este o principal de sua volta: concretizar a paixão de se tornar um escritor pelo poder de persuasão para conseguir a verba financeira; que é complicada pelo reacordar dos sentimentos passados. Tudo vem à tona e pode desvirtuar o processo lógico arquitetado em sua mente.

“A Árvore dos Frutos Selvagens” é um estudo plural. Aborda-se política de “portas abertas”; democracia, ética; moralidade; religião; ostracismo;  e principalmente a hipocrisia das defesas humanas; e o medo de reavivar o amor vivido antes do ir, entre flertes, momentos sensuais e espontâneos e espirituosas conduções da narrativa. É um filme-sinestesia. Nós sentimos exatamente o que eles querem, escondem e porque choram. Tanto o vento passando quanto a carga emocional dramática, e também a incompreensão, captando a simplicidade pelo olhar de um deles que diz tudo.

É um filme de cenas, que potencializa a naturalidade dos instantes vividos (o amor proibido, a diversão dos amigos, o tédio revisitado, insinuações, tesouro procurado, segredos, frustrações), que sai do padrão convencional e que ainda faz turismo (por paisagens que parecem obras de arte e um conto de fadas) quando acompanhamos o casal em sua derradeira discussão de relacionamento. Uma insensível epifania perspicaz para contar sobre separações, ciúmes, rupturas, belezas, engenharia, e sobre “acertar a condição do agora e a nostalgia”. É também sobre questionar as próprias escolhas, usando o outro próximo (culpado) para embasar perdas e oportunidades que já se sabe que não quer, como o exame final. “Covardes escolhem uma vida de servidão”, alfineta-se, analisando de forma “progressista” a casualidade de tudo e de todos.

“A Árvore dos Frutos Selvagens” é uma estética novela cinematográfica, que confronta épocas. “Coisas velhas não são sempre valiosas”, diz a “juventude”. Todos aqui resolvem seus problemas e suas questões por conversas, gerando sentenças de efeito e “senso de estratégia”. É bate e rebate. De “promover a região”, de “reputação arruinada” e de “auto-meta-ficção”. E assim, nós percebemos a mudança. Se antes, a velocidade narrativa era uma condução, agora, quando Sinan acostuma-se e “lembra” de como era seu tempo, ele e principalmente nós voltamos à calma e às provocações. Sim, é “ingênuo não julgar”, ora por um “autor infantil” pela “sua personalidade”. “Escrever é trazer toda banalidade dos elementos ordinários”, ensina-se com simbolismo, ironia, ressentimento, orgulho, melancolia e principalmente um conflito entre resignação e resiliência.

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