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O Contador de Cartas

A mão do homem morto

Por Bernardo Castro

Durante o Festival do Rio 2022

O Contador de Cartas

A roleta girou e saiu o treze. Doentiamente, e querendo acabar com aquilo, coloquei então cinquenta florins no vermelho. E saiu o vermelho. Deixei os cem florins sobre o vermelho, que saiu novamente. Deixei tudo e ganhei mais uma vez. Coloquei duzentos florins na dúzia do meio, sem saber o que aquilo poderia me dar. Pagaram-me o dobro de meu lance. Ganhei, pois, setecentos florins. Mas eu experimentava estranhas sensações. Quanto mais ganhava, mas sentia ganas de sair dali., “O Jogador”, de Dostoiévski.

O fascínio por jogos de aposta circunda a sociedade e o imaginário popular e, inevitavelmente, é comumente retratado na ficção. O clima austero e enigmático que os jogos de azar evocam é o que dá o charme e atrai o público para este tipo de narrativa. Pondo uma personagem hermética, apática e de hábitos insólitos, assombrada por fantasmas do passado no cerne desta narrativa, que já é por si só abstrusa, o diretor Paul Schrader engendra a trama de “O Contador de Cartas”. No filme, somos apresentados a William “Tell” Tillich, um ex-soldado americano em sua busca de esquecer o passado abjeto, imerso em um mundo repleto de blefes e probabilidades.

O realizador, conhecido por assinar o roteiro do clássico “Taxi Driver”, dá continuidade à sua série de estudos sobre a sordidez invisível das escórias sociais, incitando uma série de reflexões éticas e morais e questionando os sensos de responsabilidade e culpa – de onde se entendem as bases dostoievskianas de Schrader. Agraciado por grandes nomes do entretenimento estadunidense, o elenco conta com Oscar Isaac (“Moon Knight”, “Ex Machina” e “Duna”) no papel principal, além de Tiffany Haddish (“O Peso do Talento”, “Rainhas do Crime” e “Operação Supletivo”), Tye Sheridan (“X-Men: Apocalypse”, “The Tender Bar” e “Jogador nº 1”) e o icônico Willem Dafoe (“O Farol”, “The Life Aquatic with Steve Zissou” e “Platoon”) como o antagonista da obra.

De um modo geral e com inúmeras ressalvas, o roteiro pode ser considerado bem escrito – no entanto, muito mais pelo bom argumento do que pelas linhas de diálogo, que são instáveis e deixam a desejar em certos trechos do filme. Além dos momentos de floreio desnecessários e de momentos de superexposição, o enredo se escora muitas vezes na dinâmica entre Haddish e Isaac, deixando escancarada a incapacidade da atriz de catalisar o potencial dramático do guatemalteco e a discrepante diferença de qualidade entre os dois. Em contrapartida, os solilóquios indiferentes que abrem o filme cumprem o seu papel de conduzir a narrativa, valendo o destaque para o único ensejo concedido ao ator de demonstrar todo a sua vocação para a dramaturgia – este se dá pela metade de “O Contador de Cartas”, quando Oscar contracena com Tye Sheridan. Uma das estratégias que poderia ter sido adotada para ampliar o potencial dramático supracitado seria explorar mais o ator Willem Dafoe. Porém, a ele são concedidos poucos minutos de tela.

Descritos acima, aqui estão alguns dos principais furos de roteiro: as reais motivações por trás de certas ações dos personagens não são esclarecidas e parecem mera conveniência narrativa. A relação invulgar entre o William Tell e Cirk é mal desenvolvida, mal explicada e desconexa, restando concluir que a introdução de Cirk no desenrolar da história foi preguiçosa e que a personagem apenas tapa buracos em um molde de estrutura ficcional pré-estabelecido – é válida, no entanto, a ressalva de que a narrativa cíclica e os temas suscitados são pontos positivos em meio ao caos exposto anteriormente.

A direção de fotografia e a montagem são igualmente decepcionantes, provavelmente em virtude do baixo orçamento. A decupagem parece ter sido elaborada apressadamente, tomando uma série de decisões imprecisas, o que acaba por não conferir dinamicidade à obra. Eles investem em planos abertos, movimentos de câmera imperceptíveis e poucos cortes, com uma transição precária entre as cenas – algo que funcionaria em filmes sul-americanos, mas não se enquadra no estilo norte-americano de cinema que o diretor se propõe a abraçar. Fica nítida a influência do cinema estrangeiro nos planos detalhes que encerram as mãos trocando cartas – uma clara referência à Nouvelle Vague francesa. “O Contador de Cartas” é, em poucas palavras, uma proposta interessante ofuscada por péssimas escolhas. Aparando certas arestas, concedendo um orçamento digno e um tempo de produção mais extenso, é possível que se obtivesse um melhor resultado.

2 Nota do Crítico 5 1

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