O Caravaggio Roubado

Facebook
Twitter
WhatsApp
Pinterest
LinkedIn

O produto ou o blockbuster?

Por Vitor Velloso

Antes de começar a projeção na cabine de “O Caravaggio Roubado”, um senhor comenta alto (nitidamente na intenção de iniciar um assunto com os outros presentes) com uma amiga: “Engraçado, quando é cabine de filme bom, não vem quase ninguém, mas quando é um filme ruim…um blockbuster… aí lota.” O pensamento está longe de ser novo, já escutamos a frase algumas vezes, em outras palavras. Mas o que realmente chama atenção nesta situação é o fato do pronunciamento ter vindo antes do filme se iniciar, ou seja, ele não tinha visto o longa (o que foi confirmado alguns minutos antes), logo, não poderia opinar sobre. Mas a reação dele é um ponto interessante de um público específico que se forma em alguns polos das cidades. Os cinemas que fogem do mainstream são praticamente obrigados a se manterem em zonas de renda mais alta e onde os espectadores possuem uma idade avançada. Esta afirmação é feita a partir de algumas conversas com cinemas da Zona Sul carioca. Os frequentadores destes cinemas são pessoas que, em geral, possuem o pensamento bem próximo do senhor que cito acima, pois de alguma maneira há um preconceito com o produto de massa, algo que de fato mobiliza um contingente muito grande e uma valorização maior por aquilo que nos parece à margem da normalidade. É um pensamento assombrosamente elitista, mas que na prática acaba influenciando até as distribuições. Mas todo esse blá blá blá é para denunciar a hipocrisia de recusar um blockbuster pela questão do “produto” (que soa uma questão social e cultural, não apenas ideológica) e optar assistir “Caravaggio Roubado”, pois, o mesmo, não passa de um produto formulaico preguiçoso com aspirações pseudo-intelectualóides.

Dirigido por Roberto Andò, o filme irá contar a história de um crime aparentemente sem solução, que envolve o roubo de um quadro do Caravaggio e a máfia italiana. Extremamente desinteressante em seus primeiros minutos, o longa acredita que a trama que desenvolve, a partir de uma estrutura metalinguística, irá instigar o público e intrigar o mais cético dos espectadores. No fim, tudo que consegue é promover o tédio e a súplica pelo fim da projeção.

Seu maniqueísmo formal, tentando criar uma atmosfera de mistério a partir da visão crítica do mesmo e do quão desgastada alguma dessas fórmulas são, apenas vai esvaziando a obra, não que em algum ponto ela tivesse profundidade, mas as próprias camadas narrativas que ele desenvolve, tornam-se intragáveis. O jogo misancenico que ele impõe à película é tão fajuto e anticlimático que a visceralidade das digressões que a própria história tenta abordar, são confundidas com demência coletiva dos personagens. Nenhum deles possui alguma motivação para estar ali, nem razões concretas de existirem, apenas por uma questão fálica de necessidade de inflar o roteiro e complexar a oralidade do mistério que é contado durante a progressão do filme.

Toda a história é previsível e esquemática, utilizando os clichês mais cafonas possíveis, acreditando estar servindo de senso crítico ao gênero, quando podemos resumir em criatividade à custa dos outros, mas ainda assim Andò insiste no jogo que busca dificultar a compreensão geral de tudo, querendo ser o intelectual à margem da forma. O ego é tão tóxico, que existe a necessidade de assumir a característica vulgar de toda uma construção pautada por digressões (e humor) em uma cena patética próxima ao fim. A falta de coragem em vulgarizar o que está sendo vulgarizado cenograficamente, atinge diretamente os atores, que realizam um trabalho pouco convincente, não por uma postura decisiva, mas através da falta de coordenação no projeto.

Mal intencionado, ele busca uma estética tipicamente paródica, europeia, e torna-se uma piada durante seus 110 minutos, porém sempre buscando seu lugar no intelectualismo de segunda. As “camadas”, os diálogos que vão atrás dos fatos não contados, a criação de tramas paralelas que nada adicionam à narrativa principal, toda a pompa de flexionar o anseio italiano em uma historieta canhestra com um blasé constante, cansa o espectador ao longo do tempo.

“O Caravaggio Roubado” não é um “blockbuster”, mas é um produto tão frágil que nem Andò acreditou no fracasso.

Posts Relacionados

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *