Nós Os Bárbaros

A didática material

Por Vitor Velloso

Durante a Mostra CineBH 2020

“Nós os bárbaros” de Juan Álvarez Durán é um documentário performático que se diferencia dos demais pela proposta dialética-didática do mesmo. O longa vai contar a História da cultura aimará, investigando uma escrita original enquanto performa uma didática prosaica enquanto dialoga com o debate materialista da dialética possível na forma como se conduz o filme.

O projeto se articula em torno de uma estrutura que busca em raízes pragmáticas como passar parte dos conhecimentos da cultura aimará para seu público. Assim, parte dessa troca se dá como uma aula de fato, onde o deboche é imperativo nessa construção lenta mas funcional. Contudo, não há a menor pretensão de reconhecer aqui parte de uma dialética que se dá através de simbolismos burgueses, a particularidade se vê como totalizante, onde há uma interpretação, longe da representação, imediata dos costumes e tradições. Não à toa, há sobreposições de escritos em imagens capturadas pela produção, pois esse reconhecimento de um objetivo positivo cultural é a tônica que Durán busca ultrapassar. Atravessando nesse processo algumas verves contundentes, principalmente em como expõe a própria produção para tornar a argamassa da dialética-didática algo mais palpável para o espectador.  

O exercício dá frutos de maneira imediata, pois consegue essa conciliação das formas como um monumento de investigação da cultura aimará, representando-os no cinema, mas com a interpretação necessária, sem tornar o processo algo terceirizado. A escolha possui rebotes no ritmo, já que os paralelismo criados vão cruzando a narrativa primordial que é elencada inicialmente pela produção e acabam tornando a experiência um vai e vem completo. Os méritos disso surgem a partir do discurso totalizante, como dito, que isso abarca, já que sua abordagem é linha direta com a materialidade da própria História, os dispositivos se somam como uma analítica circunstância de etnocídio e da morte de uma cultura que se vê ameaça, ainda, pelo capitalismo e pela proposta alienante da “civilização”. Conta disso, vemos o desespero de alguns personagens e suas tentativas de permanecerem vivos enquanto aimará, ou seja, mantendo suas tradições. 

Mas o desafio proposto por “Nós Os Bárbaros” vai além da mera proposta de discussão ou exposição do problema, a linguagem encontra um campo fértil para que as ideias possam ser disseminadas, logo as performances se iniciam, a unidade estética ganha o estoicismo classicista a partir da manutenção de um retrato espacial e temporal, onde a interpretação é a chave única para se consagrar esses objetos na História apresentada aqui. Isso se dá pela maior denúncia constante da obra, vislumbrada a partir de um processo de investigação, citado acima, que não necessariamente finda em alguma conclusão, mas irriga essa “jornada” através de seus encontros. Assim, não assistimos um documentário com material de arquivo, falas expositivas constantes e todo um processo didático através da montagem cinematográfica, mas sim a partir da dialética concebida entre a realidade e a interpretação enquanto esse quadro fílmico. Não à toa, sua abordagem está conectada com a forma de maneira intrínseca, pois o interesse pelas pessoas é a concepção da discussão material em interpretação em seu reflexo ficcional. 

Com isso, as bases corrosivas de um cristianismo reformatório e categorizante, a partir da linguagem e da moral dogmática, vai sendo abandonada no processo, a fim de firmar um filme que não verticaliza o debate, mas não pragmatiza a didática em prol da dialética e vice-versa. E por isso, o projeto funciona enquanto denúncia e mantém o interesse do espectador, pois não se curva ao internacionalismo tacanho que vem institucionalizando as obras latino-americanas. Mantendo assim uma consciência crítica da própria estrutura que decide abordar, sem alienar por completo a pesquisa e a produção. 

As decisões de “Nós Os Bárbaros” acaba pesando no ritmo e em uma repetição inebriante, mas permite que o documentário saia das amarras tradicionalistas europeias, para mergulhar de cabeça nas tradições aimarás. E sem manter o fetiche colonizador que estamos fadados a assistir nos cinemas. Espero poder ver uma distribuição digna para os circuitos brasileiros, do contrário, estaremos mais uma vez reforçando a fragilidade de nossa manutenção cultural. Provando que estamos fadados à desgraça. 

Trailer

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