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Nós

Os múltiplos andarilhos

Por Vitor Velloso

Durante o Olhar de Cinema 2021

Nós

“Nós”, de Letícia Simões, é um documentário que trabalha a partir do sentimento de não pertencimento à um lugar e de um anúncio feito pela diretora, em um jornal de Berlim, “Se você não se identifica com o lugar em que nasceu e de alguma forma cria sobre isso, me escreve”. Durante a projeção o espectador acompanha uma série de depoimentos que retomam a ideia de “cidadão do mundo”, do cosmopolitismo e de falas andarilhas que procuram compreender traumas a partir de criações ou da permanência.

Para além de uma contextualização geopolítica que se faz necessária, em especial para cada um dos personagens presentes no filme, uma linha problemática é vista com clareza, esse não pertencimento, enraizado em problemas familiares ou questões pessoais com o lugar, reflete algo além do subjetivo. Torna-se um discurso que recusa a nação, o país e o ato de vagar pelo globo com a escusa da inquietação, é a autorização financeira de quem está desempregado mas achou a passagem para Berlim barata. Não surpreende o que “Nós” apresenta, entre a diluição da matéria em favor do psiquismo, da metafísica e do academicismo que desenvolve seu caráter diletante sobre prédios, espaços e pessoas. A divisão burguesa das problemáticas coletivas para as individuais gerou essa recusa do nacionalismo, tão visto na ala progressista brasileira, por exemplo. Veja bem, me refiro aqui à questão central do documentário, não as particularidades das histórias pessoais de cada indivíduo.

Letícia Simões até faz algum esforço para que o espectador perceba as diferentes narrativas com propostas estéticas igualmente distintas, transformando o documentário em imagens que seguem o tom andarilho de seus personagens. Para cada um que fala à objetiva, uma nova proposição é feita. O problema é que quanto mais avançamos em “Nós”, mais fica claro que a confusão é imperativa. O longa não consegue se organizar em uma montagem que está mais preocupada em encontrar momentos de efeito e falas que podem encerrar um raciocínio, que necessariamente construir uma unidade que dê conta de todas essas histórias como um sentimento em comum. Ou seja, aquele anúncio que falam no início da projeção: “Se você não se identifica com o lugar em que nasceu e de alguma forma cria sobre isso, me escreve”, se torna uma desculpa rasteira para o filme transitar entre diferentes estéticas sem nunca se encontrar. Uma parte da produção documental nacional contemporânea, com todos seus vícios pessoais, voz off em tom íntimo e reflexões do eu, ou da representação dos muito “eus”, se tornou uma vertente cinematográfica, que quando bem explorada, é capaz de encontrar meios de desenvolver uma perspectiva única para seu objeto. Do contrário, temos o cinema de fala mansa e culpa burguesa de Petra Costa em “Democracia em Vertigem”, onde há uma homogeneização da opinião individual com a pública.

Aqui em “Nós”, por mais que o cosmopolitismo e a recusa nacional sejam pontos que incomodam extremamente, o que mais faz a coisa toda perder o sentido é a própria omissão dessas trajetórias em suas situações de classe. Algo que Petra, apesar de sua culpa moralista, faz com alguma frequência. E quanto mais se compreende esse movimento de não pertencimento com as criações a partir disso, mais a imposição da revolução particular se intensifica, a “resistência” torna-se a grande chave para entender esse sentimento que permeia a obra. No fim, por mais que parte dos depoimentos sejam sinceros quanto à sua individualidade, o longa em si soa é menos honesto que deveria quanto à trajetória dessas pessoas e fica nesse fluxo de imagens que não completam sentido em si, muito menos à coletividade evocada pelo título. Infelizmente é um reflexo contemporâneo da imposição do valor de troca da cultura, um dispositivo que se tornou acachapante para os realizadores do Sul Global, royalty da “globalização” confundido com dispositivo estético. Mas como o não pertencimento é a tônica, talvez seja equívoco, não? Sem surpresar no encerramento do Olhar de Cinema.

1 Nota do Crítico 5 1

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