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No Fio da Navalha

Justiça, corrupção e a tal da "privacidade"

Por Vitor Velloso

Cinema Virtual

No Fio da Navalha

A infiltração ideológica da “liberdade e privacidade” norte-americana corrompe a moral do sistema judiciário de um país que dá as costas para o crime de neonazistas em “No Fio da Navalha”. O longa de Teodor Kuhn é direto, cru e rude em sua abertura, o anúncio da morte do filho vem pela madrugada, o atordoamento diante do fato e uma sequência de memórias que reconstroem os últimos momentos em que viram o garoto. Inspirado no caso real de Daniel Tupý, o filme é amargo e a forma criminosa como as instituições foram coniventes com os neonazistas chamou atenção na época. Em um contexto distinto, fica claro como a escrita oficial se comportava em relação à ideologia neoliberal: O assassinato, registrado na íntegra, não poderia ser levado levado em consideração naquele momento, pois a “única” prova eram filmagens de câmeras “não regulamentadas” pelo Estado, logo, seria uma prova ilegal.

Essa narrativa é próxima ao que já vimos recentemente à esmo pelo sul global, quando convém à classe dominante, é onde alguns esgarçam as mangas para falar das proporcionalidades e outras argumentações floridas. Apesar de ser angustiante assistir uma narrativa que demonstra a incapacidade do pai de conseguir o direito à justiça, “No Fio da Navalha” procura o impacto de determinadas sequências e imagens em uma perseguição que desloca a estrutura do filme para um lugar comum. Essa iniciativa em torno da exposição acaba fragilizando uma história que cai em diversos clichês e arquétipos unidimensionais. Contudo, esse jogo não é vulgar como um todo, afinal quando o prisioneiro tira a camisa e mostra uma suástica nas costas, ao menos um motivo de prisão está ali presente, é parte dessa indignação que o diretor procura, mas acaba mais preocupado em provocar essa inquietação no espectador que necessariamente conduzir uma história que já é absurda.

O caráter Ativista de determinadas obras, denunciado por Walter Benjamin em outro momento, é o reforço desse caráter que assombra o cinema: o senso comum. Nas palavras do filósofo: “O Ativismo empreendeu a substituição da dialética materialista por uma grandeza indefinível em termos de classe: o senso comum… Por outras palavras: o princípio em que se baseia a própria formação desse coletivo é reacionário; não admira que os seus efeitos nunca tenham podido ser revolucionários”. Diferentemente do caráter Militante, a ideia do senso comum é debatida também por Pasolini, através de outra ideia, a do consenso, ou seja, o senso comum através dessa coerção, que neste caso, é a ideologia da classe dominante. Quem? A indústria cinematográfica. A digressão é necessária para contextualizar que a insistência da provocação como dispositivo da indignação, é mais danosa que eficiente, além de criar uma compreensão turva dos fatos, pois retira de contexto.

“No Fio da Navalha”, ao retirar-se da contextualização, se torna apenas um mero gatilho do acontecimento, absurdo e revoltante, mas inócuo na maior parte de sua projeção. Funciona como um princípio da crença que a revolta do espectador será o suficiente para guiar essa narrativa até o desfecho ainda mais catastrófico. Não é. A trama acaba se arrastando, criando voltas e barrigas excessivamente prolongadas, onde o próprio drama familiar perde o sentido, ainda que retorne constantemente como uma chaga que deve ser carregada pelo pai.

Acaba sendo um filme com um esqueleto suficiente para uma grande obra, que prova ser incapaz de se desenvolver sem ceder às facilidades industriais e ao conteúdo programático. Infelizmente é formulaico e lento, provocando alguns sentimentos na primeira metade e perdendo uma força considerável na segunda, ainda que os apelos diretos possam funcionar como impacto imediato, não são sustentados além disso. É uma adição de catálogo melhor que a média da plataforma, longe de ser um destaque no meio das possibilidades para o espectador.

2 Nota do Crítico 5 1

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