My Salinger Year

Escreva todo dia, Joana!

Por Fabricio Duque

Durante o Festival de Berlim 2020

Antes de traçar linhas analíticas sobre o filme de abertura do Festival Internacional de Cinema de Berlim 2020, nós precisamos entender que há muito mais na escolha do diretor artístico do que a simples cinefilia, neste ano Carlo Chatrain. Sim, “My Salinger Year” é o que chamamos de experiência “Sessão da Tarde”, assim é necessário que seja mais simples, mais suavizado e mais fofo para o público, sem esquecer do tão almejado final feliz. Mas o filme em questão aqui talvez transcenda a própria simplicidade com simplismo exagerado. Digamos que chega a ser preguiçoso por enaltecer o distanciamento sinestésico, uma zona de conforto já condicionada pelo modelo aceitável americano.

“My Salinger Year”, que é baseado no livro homônimo escrito por Joanna Rakoff, e não no polêmico “Abandonada No Campo de Centeio” da autora Joyce Maynard (que narrou seu relacionamento amoroso com o queridinho escritor americano), transita entre dois mundos. O da nostalgia encenada e o da contemporaneidade deslocada (pretendendo ser naturalista). O longa-metragem aqui também reverbera outra característica: a de ser uma fábula auto-ajuda (visto que aqui os conflitos são facilitados demais – aí que o espectador se dá conta que nossa protagonista é uma sortuda incondicional por largar tudo e arduamente lutar por “ser uma legítima novaiorquina”). “Não quero ser ordinária, mas sim, extraordinária; quer escrever em New York; quer estar em New York”, diz exatamente com essas palavras. Sim, também achamos que simplifica demais o efeito do discurso.

O público tem duas opções de assistir ao filme. Mas antes, uma curiosidade: na coletiva de imprensa ninguém aplaudiu, tampouco pretendeu. A primeira é embarcar na fofura palatável, com seus gatilhos comuns e suas fórmulas condicionadas, aceitando sem julgar que é uma literal obra literária (com medo suficiente de ousar). A outra opção é mais radical ao confrontar que o superficial por lógica nunca conseguirá traduzir a potência do tema abordado. Aqui, a direção é “agregar” o que se consegue retirar dos dois.

Com sua república amiga, com seu namorado socialista, com sua forma “salvadora” de impulsionar com modernidade a “Old Nova Iorque” (e pela reconstituição do que é lido com a quebra da quarta parede), “My Salinger Year” é na verdade um conto-de-fadas em um universo perfeito. Nossa protagonista, Joanna (a atriz Margaret Qualley), que fornece vida à autora verdadeira, pode citar que escreve poesia no currículo que quando a amiga não quer mais morar com ela, um apartamento aparece (ainda que sem pia). E/ou nunca ter lido Salinger (“brutal e engraçado ao mesmo tempo”). Sim, caro leitor daqui, isto é sério e bem alimentado na trama. Neste momento, adentra em cena a atriz Sigourney Weaver, a editora Margaret, que se encanta imediatamente com o jeito de ser, agir e pensar da fascinada iniciante “Slush Pie” (“Use seu julgamento”). “O que você gosta de ler?”, pergunta, porque a retórica da resposta está ali: ler define o que você é. E complementa “Não há diploma que ajude neste trabalho”.

Assim, inferindo uma gama de semelhanças com outras obras do gênero, de “Julie e Julia” a “O Diabo Veste Prada”, por exemplo, nós seguimos observando jovens discutindo com uma falsa seriedade-cult literatura. Soa falso e artificial, principalmente por utilizar o artifício da digressão, para “mastigar” o que aconteceu antes. Salinger decide escrever um novo livro após trinta anos e toda essa experiência é “assistida” por Joana, perdida, tentando se achar no caos da nova vida. É inegável sua linha Woody Allen de ser (especialmente por “Meia-Noite em Paris” devido a sensação de “viagem no tempo passado” – máquinas de escrever e livros físicos), conjugada com a atmosfera menos naturalista de Ira Sachs.

My Salinger Year” é “quiet emotional” um teatro filmado, ingênuo, de ações urgentes-impulsivas e confiante demais em suas estratégias. E confundido com “empatia”. Cada vez a narrativa fica mais sensível e politicamente correta, como se precisasse provar o que não precisava provar nada para ninguém. Como assim a protagonista lê as cartas dos outros? Isso é absurdo. Um crime contra a privacidade. É um filme que cria paralelos e paradoxos entre gerações, pincelados com alívios cômicos awkard (“Jerry é seu sugar daddy?”), com números musicais a “La La Land”. Enfim, o longa-metragem é uma colagem de instantes de um cotidiano editado por utópicos sonhadores. Protocolar, comum e assumidamente distante. Um alie perdido. “Escreva todo dia, Joana!”, ensina J. Salinger.

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