Mr. Wonderful
Da vanguarda à transcendência
Por Fabricio Duque
Assistido presencialmente durante o Festival do Rio 2026
Há algo de transcendente no significado da palavra maravilhoso. Tanto que Caetano Veloso e Gilberto Gil já cantaram o adjetivo o atribuindo ao divino, outra palavra que traz toda uma existência metafórica por trás, que por sua vez, Belchior foi lá e acrescentou alusões. É, para lidar com essa perfeição etérea é preciso mesmo possuir a capacidade de se permitir a uma libertação de paradigmas (“apenas por usar uma roupa extravagante”, quem sabe!) e, no campo do cinema, das padronizações mais convencionais. Esse processo tem que ser livre, despretensioso, descontraído, imersivo e empático com o que se encontra e sobre o que se fala. Sim, a realizadora Susanna Lira tem esse poder e talvez toda a sua maestria artística aconteça por isto: a de não fazer com que suas personagens escolhidas em seus filmes se adaptem a ela e a sua maneira de condução, mas totalmente o oposto. É Susanna que faz todo trabalho pra entrar no universo de quem conta, celebra e homenageia. Cada obra dessa diretora carioca quer o cotidiano coloquial mais genuíno, a ideia mais orgânica, a forma mais compatível. Seu mais recente documentário, “Mr. Wonderful”, integrante da Mostra Retratos do Festival do Rio 2026, não poderia ser diferente.
Ao trazer o mundo do Mr. Wonderful, o estilista Luiz de Freitas, vindo de Pau Grande, no interior do Rio de Janeiro, que criou a icônica (pioneira e homônima) loja de roupas (para negros) nos anos setenta, revolucionando a moda ao dar fluídas possibilidades, ressignificar convenções, cores e estampas ousadas nas vestimentas dos “novos” homens, o filme “tira tudo de cafona do Brasil”, referenciando sem retórica quando se pergunta sobre a história (re)vestida da intelectualidade moderna contemporânea do nosso país. Para ser o mais fiel possível, Susanna vai à narrativa sensorial, de tempo suspenso, de metafísica em fluxo, em que a câmera acompanha detalhes, luzes atravessadas e ângulos estéticos do redor contemplado. Do nosso olhar. Isso desencadeia a liberdade da espera das ações (quase em tempo real do instante vivenciado), do espaço perdido, da cena estendida, ainda que intercale com entrevistas em tom clássico, como a de Carlinhos de Jesus, por exemplo. E/ou quando solta curiosidades: “O único estilista do mundo que viu Chico Buarque de cueca branca”.
Aqui, em “Mr. Wonderful” também traz uma crítica a toda uma sociedade que alimentou uma masculinidade tóxica e homofóbica. Que homens usam azul e mulheres usam rosa. Que meninos brincam com carrinhos e meninas com bonecas. Susanna, pelo artifício temático do próprio filme, quer questionar essas literais e maniqueístas limitações de se definir os comportamentos humanos-sociais. Ao contar a história de uma figura-homem que rodou o mundo com seu talento e sua expertise à vanguarda, o documentário embarca numa transferência psicossocial, estrutural e dialética dos problemas universais desses indivíduos podados por validações alheias. E que existem desde que o mundo é mundo. Esse confronto de amarras proposto pelo documentário, ainda que saiba que só plantará sementes, ajuda a criar uma fricção no assunto da diversidade de gênero, com seu respeito e sua intrínseca naturalidade do apenas existir perante os outros.
“Mr. Wonderful” também é sobre um estudo sobre limites da criatividade. Até que ponto alguém pode seguir inovando? Steve Jobs disse ao criar o Iphone que as pessoas não sabem o que querem, até alguém apresentar uma novidade necessária. As roupas são assim. Representam uma atitude. Um passaporte de personalidade. Um lugar de pertencimento no próprio corpo que se veste. Vide a Cultura Ballroom e o Blaxploitation. Sim, Susanna também sabe do desafio de precisar que sua personagem escolhida, que é o filme, se sustente até o final. Que segure o público com suas histórias, polêmicas e carismas. Luiz de Freitas tem isso. Mais tímido e datado que Fernanda Young, Gonzaguinha e Marli, por exemplo, mas uma personagem de alta-costura. Até porque esse maravilhoso vestiu Freddie Mercury, Prince, Rod Stewart e Madonna (com dados factuais da Revista Elle).
Em 2024 foi lançado sua biografia “Eu, Luiz de Freitas, Mr Wonderful”, de Dininha Morgado, mas Susanna Lira preferiu beber diretamente da fonte. “Mr. Wonderful”, com roteiro de Simone Melamed, é 100% Luiz de Freitas, pelas lentes dignas, apaixonadas, pessoais, viscerais e humanas dessa diretora que parece fazer filme como bebe água, ao lado, claro, óbvio, de seu time veterano: a precisa montagem (e desenho de som) de Ítalo Rocha, a irretocável direção de arte de Monica Palazzo e João Martini, com figurino de Herbert Correia; a edição de som de Tiago Picado; a música (e produção) de Tito Gomes; enfim, uma conjunção técnica antenada em sinergia. Sim, não haveria realizadora, ao lado de sua filha Pilar Sla, que assinou assistência de direção, melhor para contar a história de Luiz de Freitas e, seu alterego ficcional documentado, Raphael Elias.




