O Segundo Dia
Por Vitor Velloso
Direto da Mostra CineOP 2019
Neste segundo dia da Mostra de Ouro Preto entraremos, de fato, na programação, assim algumas pautas iniciadas anteriormente retornam agora com força total e tom inaugural. É o caso do primeiro seminário do dia envolvendo preservação com a Abertura oficial do seminário do 14° Encontro Nacional de Arquivos e Acervos Audiovisuais Brasileiros e do Encontro da Educação: XI Fórum da Rede Kino, que teve como convidados: Célia Xakriabá, professora e ativista do movimento indígena, Francis Vogner, curador da Temática Histórica, Lucas Parente, cineasta e escritor, Vladimir Carvalho, cineasta e documentarista, com mediação de Clarisse Alvarenga, curadora da Temática Educação.
A temática envolveu a questão central dessa edição da Mostra e veio debater como a cultura brasileira promove a negligência aos povos indígenas, assim, toda a conversa girou em torno da apropriação lusitana da cultura primária do Brasil. Todos falaram sobre historicidade no cinema brasileiro, ou historiografia, arremate histórico e construção de caráter regional fragmentado à realidade política daquilo que na prática a sociedade define um indivíduo, porém, quando Célia dominou o microfone, o auditório foi abaixo. Não havia visto sabedoria burguesa que pudesse contra argumentar, apenas aprender.
A aula que assistimos, e deveria ter se mantido o silêncio já que não aplaudimos uma professora ao nos ensinar, colocou toda a discussão teórica (repleta de falsos pragmatismos) abaixo e pôde-se enxergar com clareza a realidade de um povo que nos solidarizamos com a luta mas jamais seremos capazes de compreender o que, factualmente, é aquilo. Ao fim do debate iniciou-se uma roda de conversa com Marcelo Miranda, crítico de cinema, e Edgard Navarro, homenageado da edição. O bate papo foi frutífero, tendo como foco central as questões filosóficas e políticas abordadas pelo cineasta ao longo de sua carreira. Suas referências à Nieztche e ao pensamento libertário são fruto de um impulso criativo inquieto.
Infelizmente, causa de atrasos, não pode ser estendida, a conversa, mas ter mais um momento de contato com o cineasta é de uma felicidade tamanha. No terceiro seminário, sobre Mulheres, Terras e Territórios tivemos a presença de Célia Xakriabá, professora e ativista do movimento indígena, Mãe Efigênia (Mametu Muiandê), matriarca e liderança máxima da comunidade Quilombo Manzo Ngunzo Kaiango, Sandra Benites, coordenadora pedagógica de educação indígena e Clarisse Alvarenga, curadora da Temática Educação como mediadora do debate. E como sempre foi uma potência indescritível, a voz de cada uma dessas mulheres ressoa em ensinamentos máximos que nada precisa ser dito ou feito, apenas a escuta é necessária.
A discussão acerca da representatividade e da territorialidade dessas pessoas é algo incrível em um festival de cinema que aborda anualmente a memória e a história, não por acaso elas levantam a questão da importância do audiovisual na história. E a necessidade de um esquecimento desse processo tecnocrata e excessivamente pragmático do mundo contemporâneo, em prol de medidas coletivas e que vão somar às atitudes futuras de cada uma. Em seguida ocorreu o debate acerca da Preservação Audiovisual frente às tecnologias digitais com participação da Beatriz Kushnir, diretora do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro, Erick Soares, Technology Expert – Sony Brasil, Fabio Tsuzuki, sócio fundador da Media Portal, Zé Maria, gerente do Cedoc da TV Cultura, com mediação de Igor Calado, diretor técnico da ABPA.
A conversa se desenvolveu visando os desafios do mundo contemporâneo e das mídias digitais à preservação, logo, algumas polêmicas são levantadas parte do público reage com caretas e se entreolham, mas sem grandes alardes. A pauta girou em torno das questões políticas a serem enfrentadas em tempos onde o desmonte da cultura e da História se faz presente, Zé Maria e Beatriz Kushnir foram mais incisivos nestes aspectos, conseguindo animar a conversa e levar essa preocupação ao público. Sem muitas novidades a conversa rendeu mais no âmbito político, nas reações a partir de algumas propostas de Erick e do fim do Conarq (uma preocupação realmente generalizada). A necessidade do debate prendeu a atenção dos presentes, já que parte da mesa não contribuía efetivamente.
Vale destacar uma das melhores mediações até o momento, do Igor Calado. O dia irá continuar com exibições de curtas na Mostra Histórica. Na Mostra Preservação, o Rio da Dúvida, de Joel Pizzini às 20h e por último Inverno (1983), de Carlos Gerbase. Haverá crítica dos dois longas citados. Não perca a cobertura do Cine OP no Vertentes do Cinema, continue ligado. Até mais!