Minari – Em Busca da Felicidade

O sonho de uma terra arrasada

Por Vitor Velloso

“Minari” de Lee Isaac Chung é uma das maiores apostas para o Oscar virtual. Laureado em diversos festivais e com investimento pesado da A24, o filme é uma promessa para a temporada de premiações na terra do capital privado.

Na história de perseguição ao “American Dream”, o longa até parece construir uma perspectiva crítica dessa propagação de uma idealização em torno da prosperidade individual como esse motor máximo para a continuidade de uma nação. Contudo, acaba cedendo ao conservadorismo e assumindo a inevitabilidade de uma necessidade moral cristã de comunidade e perpetuando que esse capital é a verdadeira redenção de um mosaico cultural definido pelo embate de classes.

O filme investe constantemente em alguns clichês bastante datados, desde “adivinhador de água” ao “veterano da Guerra da Coréia” (o que é execravelmente previsível, em especial pelo tom de uma confissão egóica), porém investe em um drama familiar que consegue funcionar a partir de um conflito interno na trama, que gira em torno dessas relações de maneira mais direta e da materialidade com que os problemas aparecem. “Minari” possui algumas interpretações de destaque que consegue assegurar o interesse do espectador pela construção da obra, Steven Yeun, Han Ye-Ri, Youn Yuh-jung, Will Patton e Alam Kim conseguem dominar a narrativa e assegurar que parte das intenções dramáticas se concretizem.

Youn em especial, que leva Soonja ao pódio, consegue transmitir uma perda de esperança com momentos singelos que não estão amparados pela suposta discussão política que o projeto busca. Pelo contrário, ela parece atravessar os acontecimentos como uma força que se encontra em constante deslocamento, mas fortemente amparada pela tradição. E é essa questão basilar que o filme não consegue encontrar.

Em entrevista Yeun diz ser uma obra que “fala muito de seu pai e de sua família”. Já o diretor relata que: “Eles falam coreano, trata-se de uma família e há alguma cultura coreana envolvida, mas acho que este filme fala muito do que a América é”. E neste ponto “Minari” falha. Por não conseguir compreender como uma questão cultural, tradicional e identitária é transposta para um universo de adversidades onde o capital rege cada escolha tomada.

É claro que estamos em um mundo “globalizado”, com imperialismos e colonização terceirizada que transforma tudo em um barato de uma eloquência ditada pelo dólar. Mas “Parasita”, também sul-coreano, caminha no mesmo sentido. Cria uma revisão dessa consciência de classe, a partir do capital, tratando o “revés” materialista como o imbróglio de uma local em suspensão, ou mesmo de um não encontro cultural. E se essa prática poderia ser uma força da obra, por consolidar uma consciência crítica diante da realidade e de idealismos múltiplos, incluindo a própria identidade, faz isso de maneira complacente ao institucionalizar, de maneira dogmática, um fundamentalismo da sociedade norte-americana, de origem cristã com projeção farsante, em uma narrativa que acaba cedendo à consumação da prosperidade de uma comunidade que se está gasta com o conservadorismo.

Essa proposição decadente de um prognóstico fatalista, apenas reforça que a verve estadunidense consome o indivíduo como um retrato de um imaginário que possa ser levado ao Oscar e às premiações que aceitem a consumação de um conceito maior que o cinema pode tratar. Não é de hoje que a A24 investe em uma idealização norte-americana, com ressalvas, para diluir suas falácias e falibilidades homicidas. É um conservadorismo que encontra uma retórica menos agressiva para elevar o que essa prosperidade, como valor máximo de uma sociedade privada, não encontra nos debates internos de suas políticas de classe.

Ainda assim, “Minari” consegue ser emotivo em alguns momentos, em especial pelas interpretações, e pode arrancar alguns choros durante a projeção, sem apelar (pouco menos) de maneira tão intensa aos maneirismos industriais que não conseguem reformular suas forças expositivas, mas sua referência à comunidade categorizada pela margem de um país que mantém o grau de dependência de nações periféricas, soa… bastante inocente, sendo, no mínimo, otimista. Se Hall estiver certo na afirmação “Cultura não é uma questão de ontologia, de ser, mas de tornar-se”, acho que a preocupação deve vir com mais desconfiança.

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