Mostra Um Curta Por Dia - Mes 10 - abril 2024

Meu Novo Brinquedo

A consciência da moralidade

Por Vitor Velloso

Meu Novo Brinquedo

Dirigido por James Huth, “Meu Novo Brinquedo” é um daqueles projetos de descarte que chega como opção alternativa às salas de cinema com distribuição limitada. Trata-se de um produto feito sob medida para exportação e que mira uma comédia de amplo alcance, estrelado por Jamel Debbouze e Daniel Auteuil (que já flerta com a decadência na carreira há algum tempo). A obra propõe uma lição de moral sobre felicidade, luto, amizade e cumplicidade, com todos os clichês que uma dramédia poderia contar e propõe uma leitura bastante desonesta de conciliação de classe a partir de supostas críticas ao funcionamento do mundo “moderno”. 

Desde os primeiros minutos, fica claro que a proposta de James Huth não é construir o conflito de seus personagens para assegurar uma narrativa bem construído em torno da relação de Samy (Jamel Debbouze) e Alexandre (Simon Faliu), mas sim de promover um olhar sobre a objetificação do ser humano e a necessidade do sorriso de uma criança bilionária. É tudo tão programático que atravessamos o cotidiano de cada um dos dois de forma antagônica, a partir da fotografia de Stéphane Le Parc, que procura o enquadramento frio e objetivo, evitando unir os personagens no mesmo quadro e forçando uma paleta de cor mais acinzentada para o universo de Alexandre e o extremo oposto para a vida de Samy, com cores quentes, mais elementos em único quadro etc. Para isso, a montagem de Monica Coleman segue a mesma cartilha, ditando ritmos distintos para cada cenário, tornando mais lento e acelerando, respectivamente. É tudo tão aborrecido e preguiçoso, que toda a construção até o momento de encontro entre os dois personagens soa como uma etapa burocrática a ser cumprido por um roteiro escrito por inteligência artificial. 

Quando de fato estamos diante do cerne do projeto, “Meu Novo Brinquedo” passa a arranhar a superfície no embate de classes, pincelando um movimento popular contra uma grande empresa, excluindo por completo qualquer consciência de seu protagonista e esvaziando o projeto para um homem pobre que é “comprado” para adoçar a vida de uma criança com dinheiro incontável. É uma representação explícita e mal-intencionada de “o dinheiro não pode comprar tudo”. Assim, fica claro que o filme deve atravessar pela exposição da ausência afetiva da figura paterna, das dificuldades enfrentadas pela classe operária e pelo crescente afeiçoamento entre os dois personagens. Porém, nada disso é relevante para a história, pois nenhum desses elementos é sequer construído, são apenas menções ocasionais, cenas recortadas ou diálogos ao telefone. No fim, tudo é uma grande desculpa para o longa destilar uma falsa sensação de resolução entre as classes a partir da particularidade dessa relação entre os personagens e, claro, promover a ideia de que é possível unir gregos e troianos a partir do dinheiro que o bilionário fornece. 

O mais assustador disso tudo é que o longa não consegue ter uma sequência realmente cômica que consiga sustentar toda sua má intenção, nem mesmo nas sequências de humor mais físico, protagonizadas por Jamel Debbouze, pois tudo é situado em uma tônica tão frágil que a tentativa de constranger o público a ponto de soltar uma risada, termina apenas na intenção. Se não bastasse tudo que já foi citado, o roteiro se apressa para juntar suas inúmeras pontas soltas e breves diálogos ou acontecimentos são capazes de mudar toda uma perspectiva que foi construído para um personagem ao longo da projeção, reforçando que o produto funciona em torno de gatilhos e dispositivos, ignorando qualquer as formas de representação e se atendo até a última gota de suor aos arquétipos mais básicos que o gênero tem para oferecer. 

“Meu Novo Brinquedo” consegue aborrecer do início ao fim o espectador, sem a capacidade de gerar o mínimo de escapismo necessário para embarcar nessa suposta aventura cômica com lições de moral. E nesse jogo de constantes desagrados, há uma moralização de todos os problemas materiais que são projetados na tela, transformando um filme programático em uma agenda má intencionada. Sem dúvida, um descarte pouco bem-vindo. 

1 Nota do Crítico 5 1

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