Memórias de Um Assassino

O assombro moral

Por Vitor Velloso

A dubiedade da maioria dos projetos de Bong Joon-Ho está ligada diretamente a uma proposição formal e narrativa, que se compreende através da normatividade das ações que representam, de maneira quase irracional a estrutura diária de uma população, que está à beira da secção regional ou social de um país. Dicotomia refletida em uma necessidade de urgência patológica de personagens que parecem estar a disposição da mise-en-scène que se projeta como deidade para o espectador que mensura a absurdez de particularidades isoladas como uma fé concreta em acontecimentos que se surpreendem em sucessivos flagrantes do assombro do real.

Se o texto acima não se progride em pausas, o contraponto é a concessão quase fragmentária da construção dramática que se agrega nos costumes culturais de uma conjuntura sociopolítica que se confitua a partir de uma geograficidade psicológica que aborta a subjetividade de dois investigadores conjugados ao trabalho comum.

Bong Joon-Ho é inconstante em sua carreira e em sua abordagem ideológica que se torna exterior à cultura cinematográfica que promove. Seu recente sucesso, “Parasita”, é um projeto que se assume político por encerrar um pacto de amizade individual e solidário às proposições capitalistas, mas é burocrático como seu inimigo e não completa uma trajetória que solidifique o ciclo de dialética que presume suas defesas. E acaba, assim, sendo o retrato mais monocromático e amigável da sociedade usurpadora das liberdades individuais e reconcilia os engravatados norte-americanos com a flexibilidade de Bong.

“Memórias de um Assassino” é sóbrio o suficiente para complexar suas diferentes faces a partir da dicotomia que a memória e a construção que a imagem recusa. Em “Okja” a hipocrisia do discurso se encontrava na própria plataforma e no retrato do mesmo, em “Parasita” a anti proposta dialética não funciona por seccionar uma margem tão destacada de uma sociedade em decadência que se consome da podridão do capital. Em “Memórias” temos a recorrente leitura do passado que assombra, do ciclo que se fecha mas um respeito quase glorioso da plasticidade das janelas de uma face que reconhece a fatalidade do equívoco.

As negligências e o abuso dos inspetores serve de palco para a expansão das possibilidades limítrofes da moralidade do Estado, que reclusa o absurdo à virilidade ou, a falta de, enquanto objeto individual de volatilidade da narrativa subjacente do processo de humanização de uma figura que se encontra no imaginário fragmentado de uma oralidade que se confunde entre realidade e sonhos, devaneios e desejos. O ato de estar atado ao inevitável o faz caminhar ao escuro, realizar o impensável e abrir a necessidade de venda da liberdade perante a verdade descrita em uma folha rasgada ao que liga o exterior aquele terreno tão sombrio que guarda a memória do indescritível. A resposta que vem dos Estados Unidos, replica parte da proposição cinematográfica de Bong, uma voracidade em reconhecer a Coreia do Sul como um lugar a ser colocado no mapa, nem que seja a partir da nomeação de um Polo.

A forma menos atraída pelo ocidente, do início de sua carreira, revela o humor provocativo aliado à política de absurdos consecutivas que violentam uma sociedade por dentro. Um câncer, que como a violência, requer uma atitude extrema, ainda que as consequências sejam drásticas. O problema sempre foi, e sempre será, a moralidade ao aceitar esse rebote, podendo impor ao concretismo da lembrança, o fardo que nem o tempo é capaz de curar. E sempre que olharmos para os cantos de nossos medos, os mesmos hão de performar a contundência da ausência de respostas, hora encarando, hora atormentando a paz que nos remete à inocência perdida ao tatear o tempo.

O filme se compele a situar o espectador no meio do caos, com a simplicidade cênica que, como sempre, promove a urgência das ações e cobra de seus personagens uma atitude definitiva. Enquanto os tropeços revelam o inócuo caso de esperança e/ou solução, Bong cumprimenta seu público com o humor flácido e vulgar que aproxima tudo da paródia de si mesmo. A negociação constante da trama, torna “Memórias de um Assassino” um ciclo sem fim da profunda crise de personificação que o olho adulto atravessa. O alento vem não da testemunha, mas sim da capacidade de uma sociedade de se concretizar uma cúpula que amplia a verve política individual ao ocasional ícone de precipitação, a chuva não mata, alerta, a verdade não se simplifica pois eles não querem a chuva e não esqueceram de onde cai.

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