Me Sinto Bem Com Você

Nenhum eufemismo possível

Por Vitor Velloso

Amazon Prime Video

“Me Sinto Bem Com Você” de Matheus Souza chega ao serviço de streaming Amazon Prime Video projetando uma gama de personagens tediosos e cansativos que tem como único fundamento dramático a deterioração do espectador. Não há precedentes para o longa que Matheus Souza e Manu Gavassi protagonizam aqui. Os diálogos são uma brincadeira a parte, entre lambidas, pés, sexo e devaneios da burguesia em meio pandemia, tudo parece corroborar com uma espécie de desabafo classista de uma cafonice absoluta. 

O leitor deve atentar que o desvio de ofensas mais honestas são necessárias para que a ordem seja minimamente mantida. Em passos semelhantes, nada no longa encontra seu lugar. Os protótipos de ideias, se assim podem ser chamadas, são meras desculpas para criar um romance abaixo dos piores momentos de Rebelde, em interpretações assustadoramente ofensivas e uma forma de discord desengonçado. Só invocando o ex-docente da UniRio para cessar a festa fúnebre de “Me Sinto Bem Com Você”. E ainda assim o sofrimento não acaba após os créditos finais, já que os danos são permanentes e gravíssimos. Talvez os fãs das figuras podem se aventurar em algo minimamente consciente, creio eu, por alguma resolução interna que crie paralelos com a realidade, mas sem um manifesto das subcelebridades e as decadências dramáticas que as fundou, torna-se difícil crer em algo distinto do que todos irão presenciar, o desserviço ao tempo alheio. 

Terminar o filme é mais que difícil. É uma tarefa que só os maiores infelizes contemporâneos irão ter o desprazer de cumprir. Dentre os malditos, os críticos que irão se debruçar nos delírios de uma terapia virtual, onde os diálogos não sairiam das paródias mais canastronas. Talvez tudo seja uma piada de mal gosto que confesso não ter compreendido, mas “Me Sinto Bem Com Você” cumpre o oposto que o título poderia oferecer como acalanto ao público. Como a verdadeira boca do inferno, o longa se arrasta por vielas cansadas, tristes, sem perdoar a boa fé. Entre o gosto terrível e o amargor das mazelas cinematográficas que são despejadas nos streaming brasileiros, o longa estrelado por Gavassi e Matheus (que dirige também) é uma das piores coisas que a década tem para nos reservar. 

Se o formato de vídeo chamada somado aos diálogos pavorosos não são o suficiente para espantar o espectador, as atuações vão ferir a boa vontade de quem “não desiste de um filme”. A máxima do Jairo Ferreira não se aplica por completo aqui, mas sem dúvida o tempo é uma constante que vai na contramão do(a) guerreiro(a) que se mantém em frangalhos diante da tela. Podemos culpar a produção por direcionar os esforços em compilador genéricos e clichês, porém… Bezos é o maior vilão dessa história. O projeto existir é uma coisa, ser distribuído na Prime Video, é outra. O marmanjo bilionário havia noticiado que investiria em passeios espaciais, não era bem isso que o pessoal imaginava. De toda forma, a veiculação massiva é uma tentativa de criar um produto que gere muitos cliques na internet, para além da obra em si, e possivelmente vai conseguir um bom retorno aos envolvidos. 

“Me Sinto Bem Com Você” é mais uma obra catastrófica de Matheus Souza, provando que o que está ruim, pode ficar terrível. Um currículo que deve ter gerado algumas extensas cifras, e em torno disso, uma parte da cinematografia caminha para um arquétipo industrial virtual, onde youtubers ganham a tela. Longe de ser um problema inicial, a verdadeira questão é nos dispositivos que são utilizados para essa capitalização desenfreada. quando algoritmos ditam como as produções devem funcionar, é que a automação chegou em um ponto sem volta. Um bot realizou o filme, alguém financiou, outro assinou e todos lucraram. É uma cadeia deliciosa de se assistir, uma porta giratória que funciona em uma lógica de retroalimentação para apenas uma classe, com seu discurso e sua forma. Maldito seja o Bezos….

Trailer

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