Anuncie no Vertentes do Cinema

Me Chama Que Eu Vou

A verdade está lá fora

Por Fabricio Duque

Durante o Festival de Gramado 2020

Todas as histórias são interessantes, mas a maestria de um documentário está em escolher a potência de seu personagem, que quando vem imbuído, intrinsecamente, de força natural e carisma popular, então o sucesso é garantido. O que o mais recente documentário “Me Chama Que Eu Vou”, da realizadora Joana Mariani, oferece é a verdade (ainda que relativa e de perspectiva subjetiva), mola precursora de toda obra não ficcional (cuja consequência pensante seja o conflito, visto que tudo na vida não passa de uma mentira projetada, já dizia Eduardo Coutinho). Mas o que faz deste filme ser tão crível nas percepções do público?

“Me Chama Que Eu Vou” aborda vida e obra do cantor Sidney Magal, que nasceu Magalhães e que sempre usa a terceira pessoa para falar de si mesmo. O filme, exibido na mostra competitiva na edição especial online, pelo Canal Brasil, do Festival de Cinema de Gramado 2020, acontece por adjetivos. Por chamamentos. Pela opinião cunhada pelo público e pela mídia. E aí que o artista entra em cena para responder aquela pergunta do parágrafo anterior, tudo incisivamente por suas respostas sem dúvidas e hesitações. Sidney sempre soube o que queria ser famoso, conhecido por todos e um sucesso. E nunca escondeu isso. Pelas imagens de arquivo (entrevistas de programas de televisão, como por exemplo Marília Gabriela e Hebe Camargo), nós espectadores participamos da intimidade aberta e pública do homenageado, que aceitou todas as condições e cláusulas para se tornar o “ídolo brega” e o “rei do pop”, imprimindo uma veia, pulsante demais, da vida dos ciganos (seus trejeitos espalhafatosos – quase efeminados, suas joias, suas roupas extravagantes). É a mistura de Cauby Peixoto com Liberace com Elvis Presley com John Travolta com um ídolo indiano de Bollywood.

Uma figura popular construída organicamente para agradar aos fãs e “compactuar” com a romântica e histérica violência, à moda Beatles, de ser “rasgado”, “mordido”, “rasgado” e quase devorado. “Me Chama Que Eu Vou” é um recorte de passados para ajudar na definição literal de Sidney do agora, com cinquenta anos de carreira. Contudo, do início ao fim, assistimos a uma verdade articulada de um ser lobotomizado, que repetiu tanto o mesmo discurso ao longo da vida que agora não é mais fake. Pelo contrário. A diretora consegue, com essa condução narrativa, atingir o nervo ciático da porta da mentira. O público é convidado a participar do Magal e do Magalhães, mas que no fundo o Sidney essência ainda não foi encontrado, tampouco analisado. E é exatamente essa sensação que faz com que o “rei dos auditórios” nunca perca sua realeza, com “uma disposição de ser eterno” e “explodindo” o “perplexo coração da classe média brasileira” imaginado na “Sandra Rosa Madalena”.

O documentário também expõe um radical conservadorismo por seu comportamento de um “romântico diferente”. É uma vida cheia de arte e cheio de fantasia. Uma “vida de artista”, em um “mundo de sensações”. O que não falta nesta experiências são definições. Sidney (ainda impossível separar os dois sobrenomes) pontua verdades (que hoje isso seria arrogante de se dizer). E nunca se importando com rajadas de “bichona” (“Os trejeitos deixavam o brasileiro incomodado, porque é um povo machista”). “O artista tem obrigação de ser narcisista. Eu queria ser amado e discutido. O meu futuro, a cigana ainda não me disse”, acatando o lado egocentrista da carreira, muito motivado e estimulado por sua mãe que queria um filho no estrelato e pelo primo direto Vinícius de Moraes. Ser um ídolo popular, jogar-se “para galera”, sendo “brasileiro do meu calor”, “boêmio” e “sonhador” era o futuro traçado, entre shows em churrascarias e empresário que o transformou (o mesmo que também repaginou Alcione), até chegar no auge com “imitadores mirins”.

“Mito”, “a receita de um astro biônico”, “estampa comportamento e carisma”, tudo dito representava quase um produto vendável. “A máquina é importante, mas o talento é fundamental”, defende-se. Foi um símbolo sexual e tem consciência. E rompeu o mistério. “Casar seria trair suas fãs”, que eram “seduzidas igual loucas”. Sim, “mamãe passou açúcar em mim”. Só pode. Sidney gera novas percepções. A de existir pelo passional e pela ingenuidade, quase “cafona” com suas “rosas vermelhas na boca”. “Mas o que é cafona e brega?”, rebate. Toda a vida construída para o público que eu preenchi. Toda sua vida foi pensada para a carreira. Foi morar na Bahia porque conheceu uma mulher baiana. Saiu do Rio de Janeiro por causa do perigo. É um “amante do lar, Caseiro”, o retrato perfeito da ideia de família perfeito. Quase um comercial Zoolander de margarina. Adora ser um personagem tropical. Um closet gigantesco. As camisas mais chamativas. Um amante latino. Um guarda-roupa fabuloso. Viveu o “ostracismo imposto pela mídia”. “Um personagem único que o protege, que o defende e que o fez ganhar a vida”, estrelando novelas, musicais, filmes, matérias da revista Trip e “música facada” de Rota Lee (“rebola mais que Ney Matogrosso”). Virou cult. E nunca perdeu o jeito “brincalhão” das “árvores frutíferas”. Pois é, Sidney sempre soube o que fazer, porque um artista completo sabe exatamente o que que é quer desde o inicio, sem notas indecisas. “Acendeu uma luz, a bicha enlouquece”, finaliza com fragmentos de bastidores e “erros de gravação”.

Com Sidney analisado, nós nos perguntamos cadê o filme. “Me Chama Que Eu Vou” acontece precisamente assim como um jogo abstrato de existencialismo invisível. O público termina o documentário sem saber a tão “esperada” verdade sem fofocas e sem “pilhar” as polêmicas. É um retrato autêntico e autobiográfico (de fora e de dentro) sobre um artista que é acima de tudo um ser humano, e que por consequência, mente para comprovar a própria verdade. Uma obra-prima não só pelos números musicais, mas principalmente por cadenciar leveza espirituosa de alguém que nunca questionou o que é e onde quer chegar.


A diretora prepara um outro filme sobre o artista, desta vez como produtora, ao lado de Diane Maia. “Meu Sangue Ferve Por Você”, uma comédia romântica musical, livremente adaptada na vida do cantor, que será dirigida por Paulo Machline, com José Loreto como Sidney Magal e Giovana Cordeiro como Magali. “A ficção é um recorte de três meses sobre como ele e Magali se conheceram, há 40 anos, em uma turnê que ele estava fazendo pela Bahia para lançar um disco. É uma comédia romântica musical, uma história verdadeira, mas totalmente reescrita. Como falamos, um ‘conto Magalesco’”.

O título do filme vem de uma das músicas mais famosas de Magal, que serviu de tema de abertura da novela “Rainha da Sucata”, em 1990 e que de certa forma, também brinca com uma característica especial de Magal, que costuma aceitar a maioria dos convites que recebe.

A diretora Joana Mariani conheceu o cantor no começo dos anos 2000, durante as filmagens do clipe da música “Tenho”, dirigido por Pedro Becker, que foi lançado no Fantástico, e se aproximou do artista e de sua família. “A cada encontro, as histórias de vida, das experiências e ‘causos’ contados por ele fascinavam a todos. Sidney Magalhães é uma figura deliciosa, muito diferente da personagem que ele criou para sua vida artística (Sidney Magal)”, conta a cineasta.

“Tivemos amplo acesso ao Acervo Globo, apoio de outras emissoras que nos cederam imagens que encontramos com pesquisadores, e, também, tivemos duas profissionais na casa do Magal por um mês digitalizando mais de 10 mil documentos históricos de sua carreira. A digitalização deste material foi não somente um presente para o filme, como para o Magal, que agora tem tudo organizado, datado e armazenado.”, disse Joana Mariani.

Trailer

Anuncie no Vertentes do Cinema

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *