Maria Luiza

A biografia de uma identidade

Por Fabricio Duque

Gênero, em sua definição primária, é um substantivo, por dar nome e sentimento aos seres, e se classifica por espécies aparentadas, que buscam afinidades e compreensão entre iguais. É também uma designação social para padronizar identidades sociais. O mais recente filme, o documentário “Maria Luiza”, do realizador Marcelo Díaz, não só nos conta sobre a primeiro caso oficial de transexualidade nas Forças Armadas brasileiras, como também, acima de tudo, realiza uma arqueologia do comportamento empírico, cavando a essência antropológica da problematização preconceituosa. O roteiro, à moda das ideias do filósofo católico Santo Agostinho (que estudou durante anos a definição exata de como se vê uma cadeira, por exemplo), quer traduzir literalmente a mais intrínseca causa e o porquê de toda essa homofobia (neste caso transfobia) estrutural.

Em uma das cenas, o personagem-ator-transgênero Gabriel Graça, psiquiatra e professor da Universidade de Brasília, pergunta ao diretor “Como você se identifica como homem e o que faz você se sentir um homem?”, que tenta encontrar embasamentos e no final a resposta é “Não sei”, talvez porque nós tivemos nossas ideias moldadas pelo meio em que vivemos. Talvez seja a nossa cultura que nos define como seres humanos enquanto indivíduos sociais. Gabriel complementa dizendo que talvez essa percepção seja “pré-verbal”, “pré-linguagem” e “embrionária”. “Identidade de gênero não é só psicológica, tem também um componente neuro-biológico”, ensina-se.  Como explicar a tendência mais feminina em crianças-meninos? Uma característica constituída nos primórdios da construção dessa alma? “Maria Luiza” é um filme conceito, que vai além da simples “performance de gênero” (nas manifestações acadêmicas da filósofa feminista Judith Butler), tudo devido ao desenvolvimento de sua narrativa, que escolhe traduzir Maria Luiza da Silva pelos detalhes de seus objetos coletados (seus bibelôs) e pelas crenças mantidas (ainda católica praticante) e pelos gostos simples e idiossincráticos (aviação e a felicidade desmedida de tocar os pés na água do mar pela primeira vez). E uma curiosidade, não se sabe se obra por destino e “toque celestial”, nossa protagonista nasceu no mesmo dia de Santos Dumont. Coincidência?

Toda essa disforia de gênero, que para existir precisa do respaldo da sociedade, representado pelo Estado, é aqui desconstruída. Maria Luiza brincava escondida com as tranças de uma espiga de milho, mas também se interessava por carros e aviões. Ela, até seus quarenta anos, “serviu” como ele, atendendo às regras, mandos e desmandos do “família brasileira”. Casou, fez filho e durante anos, com um currículo-carreira exemplar entregou-se de corpo e alma para “salvar a tropa” das forças armadas. O documentário é sobre sua luta para “provar” que não nasceu homem e que até mesmo sua imaginação de criança engravidou. Maria Luiza teve coragem, “atrevimento e determinação” para “sair da manada”, atitude essa que “a gente não consegue”, diz um entrevistado. De “desdizer” o que a sociedade ordena seguir.  E lutar “realmente do jeito que deve ser mesmo”, emocionada com a carteira de identidade com o nome retificado e gênero feminino.

“Maria Luiza” é uma existência-experiência de movimento” de um “corpo no mundo”. Os planos imagéticos estão sempre nos limites da tela, como se expressasse uma crítica-análise à distância de um processo de reconhecimento entre extremos (como um estranhamento em relação ao mundo). De um maniqueísmo que “descarta” por completo o não-binarismo. No interior Ceres, Goias, branco é branco, preto é preto. Não há possibilidades de misturas e permissões de novas cores. “Quando você sai, você mostra para o mundo que você é essa pessoa”, diz, então, por isso, é tão necessário e urgente personificar no fora o que se é no dentro. Maria Luiza é também uma representatividade de uma causa. De toda uma comunidade transexual. Seus pais a privaram da própria voz na infância, a sociedade a obrigou a não demonstrar “diferenças”, a própria Força Armada a violentou para impedir sua “transgressão”, e o mundo, condicionado, abaixou a cabeça, compactuando que receba menos por não atender o que se esperam dele. Em uma entrevistas recente ao programa online “Põe na Roda”, a Xuxa pergunta “Que Deus é este, alimentado pelos pessoas, que só julga e pune e que alimenta o ódio?” e responde “Deus aceita todas as criaturas e é só amor”. Nós nos questionamos também o porquê de Maria Luiza continuar católica. Será que no fundo ainda acredita que seu certo é errado. E que Deus a acalentará no pecado? Se todos são iguais perante ao Criador, cadê os desiguais? Se a Constituição Federal da República do Brasil legaliza que se deve “tratar os iguais como iguais e os desiguais como desiguais, por que então tudo é levado à ferro e fogo e sempre volta ao preâmbulo da carta magna que legitima Deus a “olhar” por suas leis?

Ainda que aprofundemos o motivo de todo essa estrutura homofóbica, não encontramos respostas e causas, visto que nós somos um manancial de memórias adulteradas, definidas por fragmentos característicos de nosso meio, como uma “lavagem cerebral”. Uma lobotomia instaurada já nos primeiros segundos do nascer. Esta é uma biografia de uma identidade. De verdade não entende a razão da padronização de uma forma impossível. Por que se intrometer tanto na vida de nossos próximos? O filme “Apocalypse Now”, de Francis Ford Coppola, talvez tenha um começo-insight quando diz “É o julgar que nos derrota”. Este é mais que um filme libertação-ressignificação. Mais que um documentário. É muito mais sobre a aceitação. Mais até que um papel do Estado que comprove sua existência-gênero. “Maria Luiza” é um exemplo de dignidade de uma ser humana que só queria ser o que já nasceu sendo.

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