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Mar de Dentro

A classe e a falta de romantização

Por Vitor Velloso

Mar de Dentro

O longa-metragem de estreia da gaúcha Dainara Toffoli é um retrato maduro e não romantizado dos desafios da maternidade, além das dificuldades de ser mãe solteira em um mundo que corrói as mulheres no campo do trabalho. “Mar de Dentro”, protagonizado por Monica Iozzi, trabalha em um contexto de exaustão, frustração e estafa diante da realidade crua do que é ser mãe. A própria diretora comentou parte das suas motivações para realizar o projeto, dizendo que: “Quando fui mãe, senti que tinha sido sonegada de informações a vida toda”.

Assim, o longa é construído a partir da velocidade dos eventos que marcam a narrativa, a descoberta da gravidez e as consequências diretas, na vida e no trabalho. Em um primeiro momento, o filme é tão acelerado que não consegue desenvolver os dramas dos personagens, especialmente de Manuela (Iozzi), que apesar de possuir um conflito claro, não deixa de ser unilateral. A própria relação dela com Beto (Rafael Losso) parece seguir essa padronização de eventos curtos e impactantes. Contudo, “Mar de Dentro” aposta nesse desenvolvimento como uma certa reprodução da percepção da realidade, onde digerir essas ocorrências é praticamente impossível. Assim, o espectador é jogado nesse universo de saltos temporais drásticos, cortes que nos arremessam de um cenário a outro sem contextualização e uma série de rupturas com narrativas mais convencionais, padronizadas.

Dentro desses esforços em centralizar a figura de Manu, os cenários são construídos quase como uma arquitetura dramática, onde esse universo corporativo, que também apresenta inúmeros conflitos, estivesse incidindo diretamente no cotidiano da protagonista. Não por acaso, sua solidão é retratada em múltiplas faces, normalmente cadenciadas pela estafa diante das diversas opressões que sofre ao longo da projeção, tanto com o conservadorismo na família de Beto, munido de um fanatismo religioso, quanto o caráter predatório do capitalismo, traduzido na figura da empresa. Para reforçar como esse isolamento é sentido pela personagem, além do figurino demonstrar as diferentes camadas desse drama, a objetiva procura explorar os espaços de uma encenação marcada pelo rigor, com um preenchimento geral da tela, a solidão de Manu e breves movimentos de câmera que atravessam o cenário e encontram a personagem.

Por outro lado, alguns momentos de “Mar de Dentro” são expositivos e não possuem um desenvolvimento claro para a narrativa, um exemplo disso é a cena de flashback, ou sonho, que envolve a utilização de uma gopro. Toda essa cena possui como “argumento” a demonstração de necessidades fisiológicas da protagonista, mas não passa de um dispositivo pouco eficaz e incapaz de solucionar qualquer questão interna. Porém, outras decisões estéticas são mais interessantes, como a câmera na mão durante o parto, na maior parte das cenas com a sogra contrastando com os espaços bem delimitados, internamente e externamente, que dominam a maior parte da projeção. Ou mesmo a cena de maior liberdade, onde a câmera se sente livre para passear pelo cenário e rosto de Manu, até repousar em seu rosto diante de diversas pessoas circulando em uma feira.

É importante a maneira com que o longa mostra que a maternidade solteira, não é integralmente solitária, já que diversas outras mulheres estão ali auxiliando nesse processo. Contudo, é uma representação de um privilégio que a maioria das mulheres brasileiras não possuem. Assim, apesar de diversos méritos formais de “Mar de Dentro” e da importância de sua temática, o projeto se torna um retrato de quem possui um bom emprego e condições de procurar auxílio de babás que estejam com a criança enquanto ela trabalha. Se descermos nas classes, a situação é a profunda dependência de vagas em creches e políticas públicas que permitam às mulheres dignidade e saúde. Não é exatamente a obra que mais traduz a realidade em âmbito nacional, mas consegue transmitir as particularidades desse processo em um campo subjetivo.

3 Nota do Crítico 5 1

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