Manifesto de Uma CineastaManifesto de uma cineasta

Significados e significâncias

Por Chris Raphael

Semana Cavídeo 2019

Mais que um filme cheio de significados, eis um significado cheio de filme. A sombra marcante e sinuosa que se entrelaça ao momento conceitual imagético reproduzido em tela, vai atropelando sem dó nem piedade a todos que se prendem a antigos conceitos e preconceitos concebidos no imaginário residual decadente da sociedade em um mundo globalizado.

“Manifesto de Uma Cineasta”, produzido em 2018 por Cavi Borges e Patrcicia Niedermeier (que também assinam o roteiro), traz a própria Patricia Niedermeier atuando e (porque não dizer) militando contra as correntes que ainda impedem uma configuração livre na maneira pessoal de vivenciar experiências.

O  “não conformismo”, o claro repúdio à padrões apodrecidos e a expectativa de ascensão  humana e sua evolução a um patamar superior,  embalado pela atmosfera embriagante insinuada na música instrumental  de fundo (Empty space dance produzida pelo quarteto de cordas Balanescu Quartet) traz à tona um desabafo íntimo, que constitui a vontade libertária e soberana da cineasta que vai tomando a forma de um simbólico estandarte , conduzindo o público à reflexões pessoais sobre o momento presente em nosso país e nosso mundo.

A censura, religião e fanatismo político, entre outros canceres sociais, vão assolando a sociedade que, inerte, cede passagem . Sem cenário além de um fundo preto, com uma diversidade de temas abordados, a atualidade deste filme-manifesto conclama o público a perceber o quanto o ser humano é maleável e adaptável e o quanto é omissos quando é conveniente.

Neste contexto, ninguém sairá sem se molhar, visto que a chuva de verdades cairá sobre todos que se encontram na penumbra da sala de exibição. E quando o texto cortante der lugar à narrativa dançada, enquanto imagens projetadas carregam o público pelas mãos, a mensagem que restará ao final é aquela que todos os presentes precisam ouvir: –Ei, estamos aqui. Sim, somos mulheres e não vamos nos intimidar e calar. Estaremos sempre prontas para que mostrar o que não querem ver e para dizer o que não querem ouvir.

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