Manifesto 2 – Uma Nova Onda

Resistência, esperança e cinefilia

Por Fabricio Duque

Semana Vertentes Online

É impossível, digamos imprudente até, dissociar “Manifesto 2 – Uma Nova Onda” da peca-filme de sua origem “François Truffaut – O Cinema é Minha Vida”, idealizada e coletivamente co-dirigida por Patrícia Niedermeier, Rodrigo Fonseca, Cavi Borges, encenada no Sala 4 Multiuso do cinema do Estação Net Botafogo, no Rio de Janeiro. Aqui, este curta-metragem, complemento de “Manifesto de uma Cineasta”, representa uma ode à sétima arte. Uma experiência sensorial que resgata a essência apaixonada de se assistir os filmes.

É o Antropomorfismo da criação, em que personifica o personagem para retratar sua humanidade, orgânica, passional, idiossincrática, subjetiva e libertária. François Truffaut é ressuscitado e convidado a participar de uma epifania quase mediúnica com seu público, que em transe compartilhado consegue sentir a emoção, magistralmente encarnado por Patrícia Niedermeier (de “Orlando” – que agora inverte os papéis de gênero sócio-existencial). A peça-filme nos imerge nas ideias, contravenções, fragilidades, questionamentos, sucessos e pretensões deste cineasta da Nova Onda, o movimento Nouvelle Vague que buscava o radicalismo intrínseco do cinema de autor.

“Manifesto 2 – Uma Nova Onda” é mais que uma homenagem a um mestre, que em 2019 completou trinta e cinco anos no plano astral. Em sete minutos, uma alusão talvez ao “ranking” que a arte da imagem recebeu, o curta-metragem reitera a filosofia nossa de cada dia, abordando seus temas universais. Aí nós percebemos que talvez a vida seja simplista demais e que, para impedir o tédio, criamos as complexidades. Sim, prato cheio ao cinema, que consegue transmitir a verdade de nossos espelhos, hipocrisias e falsas crenças.

Sim, de novo e de pura concordância, o Cinema (assim mesmo em maiúsculo) é manifesto, resistência e encontrar esperança nas adversidades mais pandêmicas. Nós encontramos respostas e mais perguntas. Dúvidas e fórmulas já mastigadas. A atriz Patrícia Niedermeier (uma força da natureza com suas nuances expressivas e corporais) é a ideia de Truffaut: vida, obra e morte. Que deixa de ser crítico para não falar mais mal dos diretores. Que nunca deixa de duvidar de si mesmo. Que encomenda sapatos (e os recebe nos momentos mais “impróprios”).

O texto de Rodrigo Fonseca é um diamante lapidado com a poesia espirituosa e sentimento emocional não piegas, enaltecido pela fotografia de Cavi “Charles” Borges, o produtor e diretor. “Manifesto 2 – Uma Nova Onda” não é um filme para se assistir de forma passiva. Não, soa até como insulto e desprezo se for assim. A experiência precisa ser visionária, transcendente, de perda dos sentidos, de reencontrar o amor ingênua pela imagem em movimento que está presente em nossos subconscientes.

Esta é uma entrega a Truffaut como profissional inalcançável (e gênio) e ser (terreno), desconstruir, (des)romantizar, mitigar o inatingível com a projeção fantasiosa do real. O ícone é desmistificado com olhares de admiração, que pensam e recriam a liberdade poética do poder ser o infinito e além. Como foi dito, é definitivamente um crime de ordem etéreo-social separar o joio do trigo. “Manifesto 2 – Uma Nova Onda” é um aperitivo. Um gostinho de quero mais, principalmente pelas imagens de “Os Incompreendidos”. 

Que estimula mais e mais o querer pulsante, pululante e urgente de assistir e re-assistir over and over again, tanto a peça, quanto este curta, quanto o anterior, quanto todos os longas-metragens de François Truffaut, que ano passado ganhou uma mostra  na Cinemateca do MAM-Rio, “Truffaut em 35mm: Uma Semana de Cinefilia”. A Nova Onda é sobre o despertar da paixão pela paixão, de se sentar na primeira fileira para “receber o filme antes de todo mundo”.

Uma experiência egoísta, egocêntrica, de individualismo exacerbado e subjetividade obsessiva. O curta também é uma crítica à liberdade de expressão. Que para alienar precisa precisa queimar livros e impedir que obras sejam publicadas. Por que o medo do questionamento? O mundo, já disse o filósofo Arthur Schopenhauer, é um pêndulo de crenças. Nós agora estamos voltando ao passado de opiniões retrógradas, ações violentas e pandemias, e tudo nos faz parar, e ao ficar em casa, concatenar pensamentos de forma mais livre.

Nos tornamos pensadores modernos, em que a pressa pela formulação de uma definição, para ser postada antes de todos nas redes sociais, estimula não o aprofundamento e sim a superficialidade. Era contra tudo isso que Truffaut lutava: de se padronizar o “fora da caixa”.

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    Texto brilhante e profundo!
    OBRIGADA Fabricio Duque pelo belíssimo olhar sobre nosso filme. Uma honra . Uma alegria. A arte vale nesses momentos! Viva TRUFFAUT e a vida! Viva o cinema!!!

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