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Mali Twist

Maniqueísmo na África de ninguém

Por Ciro Araujo

Durante o Festival do Rio de 2022

Mali Twist

Cinema africano para quem? Essa pergunta, globalizando o vasto continente possui paralelismo imediato com a América Latina e a sua busca constante de identidade própria para combater o fantasma do colonialismo cultural. Na história cinematográfica, os anos 60 externa esse estilo revolucionário de se fazer cinema. Os movimentos evidenciam assim, Cinema Novo, Nouvelle Vague, Novo Cinema português, Nūberu bāgu, Onda Negra, entre outros. “Mali Twist”, dirigido pelo francês Robert Guédiguian, entra em uma perigosíssima espiral diante da questão para quem se destina um cinema africano.

A nacionalidade do diretor evidencia um tom. Não é preciso saber previamente, ao alcançar seus primeiros vinte minutos de filme para compreender todo o ritmo piedoso que o longa de Guédiguian deseja tomar. Em primeiro porque existe uma visão, inicialmente, paternalista e colonial para com a região do Mali e Senegal. Segundo, que graças a isso, torna-se natural do texto cinematográfico criar uma dualidade, um maniqueísmo sistemático que condena o regime e acredita em uma estranha didática política. Ver política e tratar sobre ela no cinema é algo complexo, que talvez até através do olhar brasileiro soe como explicitamente perigoso. O Brasil tampouco parece se sair inclusive nesse gênero cinematográfico muito bem, com um diálogo estranhamente gentrificado. Talvez possua um nome, uma estranha e muito provável errônea acusação: social-democrata? Sim, pois o filme alcança desejos profundos de caracterizar um socialismo utópico, como em determinada cena em que Samba – protagonista caricaturizado como um revolucionário de garagem – descreve, com todas as paixões do mundo: “será o seu dinheiro, é a sua colheita. Isso é socialismo”. Mas tudo após criticar imensamente o panafricanismo da época, os revolucionários engravatados, o desejo de manutenção de tradições culturais. E assim, a batalha pela linguagem do cinema acontece.

Para esse segundo tópico, há de se realizar comparações. Djibril Diop Mambéty realizou em 1973 um longa que marcou o Senegal. “Touki Bouki”, ou a Jornada da Hiena, sobre dois jovens que sonham em fugir do país para a França. O paralelo com “Mali Twist” de Guédiguian é exatamente nessa posição de casal no qual o desejo de escapar cresce, enquanto o colonialismo assombra ambas as películas. Porém, no segundo longa e o aqui analisado, parece tão exagerado, tão fora de si. Seus momentos de pausas são filmados com uma visão tão estrangeira, óbvia de que não possui um lugar para se representar. A artificialidade poderia cair como uma luva, porém como já anteriormente descrito, a obra tomou sua posição política dualista (e duelista). As contemplações e inquietudes de ambos parecem percorrer por noções estéticas de liberdade aquém, como se não possuísse conexão com o bruto, o originário. Não impressiona o fato de a produção ter ocorrido fora de Mali, mas também, quem há de julgar após as séries de golpes de 2020 e 2021 no país?

Às vezes o casal que protagoniza o filme até pode ser reavaliado, lembrado como positivo para o que é entregue. Ou a representação de alguns costumes e tradicionalismos, como a hierarquia existente na sociedade pós-Sudão francês, que possui a agressividade e dor presentes. Ousmane Sembène mostrou bem no cinema, por exemplo. Mas eles são todos engolidos pelo mar de linguagem simplória paternalista que não apresenta nada além. Há de certa forma uma introdução para a noção classista dos governos de esquerda africanos (e do mundo por tabela), mas que novamente é limitado por toda essa necessidade até próxima do burguês. É complicadíssimo escrever sobre “Mali Twist” por conta disso, pois diante do que nos é entregue, há uma vontade de apontar dedos e chamar, como anteriormente escrito, de “social-democrata europeu” ou algo assim. Mas realmente, se Wes Anderson, realizador norte-americano, fez no ano passado uma alfinetada para a esquerda revolucionária francesa dançarina de Rockabilly dos anos sessenta, pode ser que Robert Guédiguian não tenha essa permissão para a mea-culpa colonial. E nem mesmo pela falta de conexão da origem de seu filme, de quem ele procurava retratar ou parecer filmar. É cíclico: cinema africano para quem? Para você, para nós, para eles? A quem deve representar e a quem pertence o direito de “apontar e atirar” (point & shoot)? Essas indagações levantam bem mais conversas e conversas sobre o pertencimento e propriedade da retratação do cosmos, longe da obra original.

2 Nota do Crítico 5 1

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