Olhar 2022 | Senegal e Coreia do Sul: Crônicas sobre Dinheiro

Mandabi

Olhar de Cinema 2022 | Artigo

Senegal e Coreia do Sul: Crônicas sobre Dinheiro

Por Ciro Araujo

Durante o 4º dia de Olhar de Cinema, a programação da sala 01 do Cinemark preparou uma estranha e inesperada “surpresa”. A palavra surpresa em aspas pois, inesperadamente surgiu uma correlação estranha bem pensada pela programação. Duas obras, ambas com temas centrais o uso do dinheiro: “Mandabi” e “Quente de dia, frio à noite”. São filmes que se encontram por possuírem panos de fundo dois países em distintas situações, tanto continentais quanto de épocas. O primeiro, dirigido pelo legendário Ousmane Sembène, passando-se no Senegal, final dos anos 60. Já o sul-coreano relembra a situação econômica que a Coreia do Sul se encontrou no século XXI, fruto de todo o domínio norte-americano e liberação financeira. Privatizações e vendas de um ideal meritocrático, a sopa que vendem normalmente.

Em mais algumas semelhanças encontradas durante os filmes apesar de suas geográficas e temporais distâncias, eles encontraram a comédia como casa para representar aflições. Enquanto o longa-metragem senegalês possuía uma comédia de absurdos mais risível, explosiva e até mesmo comunitária, o filme dirigido pelo sul-coreano Park Song-yeol debate um âmbito menor e de pequenas ações: não conseguir presentear por não possuir dinheiro, cobrar amigos por coisas passados, tomar um empréstimo sob a vista de agiotas. Todas são filmadas visando o olhar espectador incorporar a vergonha alheia para si. Risadas silenciosas, uma comédia onde o riso está proibido graças ao trágico, totalmente o assimilando à uma tragicomédia. O cansaço presente é inerente, transforma caminhar dentro dele como impossível. É quase a natureza humana, uma reinterpretação na verdade da condição humana (moderna). A Coreia do Sul se tornou um país tão Frankenstein através dos anos via experimentos econômicos e culturais, se tornando um verdadeiro monstro – tanto nos aspectos positivos quanto negativos. Filmes como “Parasita” são apenas consequências dos anos oitenta, noventa e dois mil nesse tigre asiático. Portanto era apenas previsível que existisse uma tendência para o tema ser de relevância nacional, ainda mais o contraste entre IDH ou qualquer outra medida de qualidade de vida é utilizada para observar os sul-coreanos.

Na obra de Ousmane, tal qual previamente dito, a explosão é o natural da piada. Punchlines inclusive totalmente esperadas estão presentes, muito pela progressão do filme empurrar que o previsível é esperar algo dar errado. Característica que lembra bastante os irmão Safdie de “Bom Comportamento” e “Uncut Gems”. Apesar de existirem diferenças tradicionais de sua época, como a própria técnica e montagem comumente mais lenta – os filmes se tornaram frutos de montagens rápidas pois o tempo contemporâneo é realmente rápido – , “Mandabi” é uma obra de progressão explosiva, sem deixar espaços para respirar. A cada segundo algo de errado acontece com o moralmente esquisito protagonista, Ibrahim Dieng, o dispositivo necessário para mover a mecânica do longa por completo, como se segurasse os vários conflitos que percorrem.

Mandabi

É difícil fazer a comparação de um diretor tão aclamado como Ousmane com um recente como Song-yeol; Mas, interessa, pois, não apenas a curadoria possui dedo, a correlação seguida de pequenas histórias que envolvem o dinheiro. Como a comparação nesse texto corre solta, não há a preocupação total crítica de ser realizada. Mas enfim; Ambos os filmes possuem mini-histórias, contos mais especificamente, que envolvem o monetário. A troca de dinheiro em papel, sempre em close da mão, todos bressonianos – apesar de Sembène ser antecessor ao francês, portanto seria ele uma inspiração?

Em outra similaridade, uma frase do filme senegalês: “Nesse país só se vive bem se for bandido”. E realmente, é uma lição que repassam durante ambos as obras: em “Quente de dia, frio à noite”, um amigo de um dos protagonistas o enrola quando pede emprestado uma câmera, para o que seria supostamente um dia de trabalho. O dia vira semanas que viram meses. Depois, é descoberto que ele vendera o objeto. Então a questão que fica é como reagir a situação? Extorquir o aproveitador? A moral entra, mas de forma alguma pendula para necessariamente o que vem a seguir, um conto moralista. Na realidade, quem se dá bem é justamente o suposto amigo, com carro próprio e bonequinhos caros adornando o veículo. Igualmente na obra de Ousmane, que Ibrahim confronta fotógrafos fajutos distribuindo golpes em troca de fotos de mentira. A câmera sempre como interesse para essa brincadeira para com a inocência humana, ou melhor, uma ponderação.

É interessante de se lidar com essas duas produções, muito por conta de ambas serem frutos de seus tempos. Os países sofreram, em algum tempo de suas recentes histórias – não que os façam serem países novos, ao contrário, mas por questões práticas consideremos apenas o recente tempo – os efeitos cruéis do pós-colonialismo. A cicatriz imposta pela posterioridade do efeito colonial é tão preocupante quanto o processo em si. Heranças marcantes no sistema, seja a corrupção em massa, a burocracia exuberante e desnecessária em um Estado que nem estrutura para recebe-la possui, ou até mesmo costumes culturais que definhem a coesão social antes existente. Na Coreia, por muito tempo o cinema norte-americano foi predominante, só sofrendo após a famosa revisão cultural ocorrida por lá.

Seja o que for, “Mandabi”, que participa da mostra Olhar Retrospectiva e “Quente de dia, frio à noite”, da mostra Outros Olhares por um pequeno momento nessa grade especial do festival Olhar de Cinema de 2022 teve uma correlação tão peculiar e tão interessante, que no fim, se complementaram. Mesmo através das séries de coincidências, ainda assim o acaso tem desses momentos tão gostosos que se tornam marca do evento. A verdade é que esses momentos fazem parte de um conteúdo que trabalha para fazer a magia do cinema acontecer; séries de coincidências ou até mesmo por vontade própria de uma curadoria, fazem uma tarde numa sala se transformar em reconforto. Ou até mesmo o desconforto, dado a temática dos dois filmes. Afinal, quem gostaria de uma cartinha do Serasa na porta de casa?

“Mandabi” (1968, 92min). Ibrahima está desempregado e precisa sustentar a família. Certo dia, ele recebe uma ordem de pagamento do sobrinho em Paris. No Olhar de Cinema 2022.

“Quente de Dia, Frio à Noite” (2021, 90min). Desempregados e enfrentando uma difícil situação financeira, o casal Young-Tae e Jeong-hee se vê obrigado a procurar os mais diversos empregos e bicos pela cidade, mas com um acordo: não fazer empréstimos privados. Um dia, contudo, Jeong-hee descumpre a promessa, mesmo sabendo que não poderá pagar. No Olhar de Cinema 2022.

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