Mailin

O fim da inocência 

Por Francisco Carbone

Assistido presencialmente durante o É Tudo Verdade 2026

Mailin

Grande parte da cobertura do É Tudo Verdade 2026 já feita, um filme insiste em não sair da memória: “Mailin”. Os motivos são múltiplos, e infelizmente um deles independe das qualidades evidentes do trabalho de María Silvia Esteve. A personagem-título é uma sobrevivente de uma daquelas tragédias tão absurdas quanto, infelizmente, cada vez mais cotidianas. A união da força do que se conta, com a força do que filma, é o resultado de um filme raro, uma produção dessas que não saem com facilidade da nossa cabeça, que não se importam com o que vão lhe causar. Porque o retratado é tão absurdo e tão criminoso, tão doentio, que o espectador precisa também estar a par dos eventos, em outras camadas que não apenas em sua espectorialidade.

É preciso se ver como parte integrante emocional daquela história. Sentir, ao menos de maneira empática, todo o horror que o filme não tenta mascarar, e o filme nem ousa se dedicar a qualquer experiência pornográfica. Muito pelo contrário, as escolhas de Esteve são sempre muito delicadas e sutis, mas sem nunca deixar de tornar as questões como parte integrante daquele mergulho. Ao lado do recente “A Cronologia da Água”, são filmes que tratam do abuso sexual (e eventual estupro de vulnerável) em um grau menos de vitimização, mas da ação de suas protagonistas e o impulso que é preciso ser dado na direção de algum lugar seguro. O caso aqui é da denúncia, e da busca por justiça posteriormente.

Há 10 anos, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas colocou, graças a vitória de “Spotlight“, no centro das conversas cinéfilas o campo do abuso sexual cometido por padres em crianças e adolescentes. De posse do entendimento de uma questão que existe há mais tempo do que temos notícia, “Mailin” se baseia no olhar direto de sua protagonista a respeito das coisas que a mesma descortina ao próprio respeito. Com a mesma acuidade com que Kristen Stewart recriou a vida da nadadora transformada em escritora que foi abusada pelo pai durante anos, Esteve é preocupada com sua interlocutora central, que se abre na frente das câmeras para o abraço coletivo de todos os espectadores, que se veem confrontados com tudo o que não se deseja sentir, ou comunicar; está à flor da pele.

A investigação dessa insidiosa relação entre um pároco local e a família que o acolhe como membro, para posteriormente ser destruída por sua violência, não se dá apenas pelos registros tradicionais do documentário. Também estão entre as ideias de Esteve inserções visuais de psicodelia onde a interpretação é subjetiva; carregam um ar experimental para um filme que não se pretende aderir ao vórtex comum aos documentários. A própria protagonista, Mailin, se imbui de participar de recriações poéticas de suas memórias menos táteis, e acabam em cena algumas provocações visuais. Nada que comprometa o acordo que o filme estabelece com o espectador, que é de carregá-lo a sentir os vínculos da personagem com a dor, a solidão, as angústias e a revolta.

Termos contato com a família da protagonista torna tudo ainda mais intenso, e o clímax de “Mailin” é nunca menos que devastador. O trabalho de montagem realça tais momentos, porque carrega junto a si a situação fragmentada do que está em risco. O fim da confiança, a exploração de inocentes, a sensação comum aos seres humanos de estar sempre ao lado de quem sofre injustiças, e que tais não será sanadas. As cartelas que encerram o filme desconstroem o que assistimos antes, mas é necessário que estejamos em contato com o sentimento constante de impunidade, que é o que sucede a maioria dos casos em questão. Um final devastador para um filme que nunca nos deixa indiferentes ou tranquilos.

5 Nota do Crítico 5 1

Conteúdo Adicional

Deixe uma resposta