Máfia S/A

Lealdades e negócios

Por Vitor Velloso

Cinema Virtual

“Máfia S/A” de Daniel Grou chega tentando reacender o mercado brasileiro para produções sobre gangues, máfia etc. Com uma pegada que fica entre suas referências e um tom mais contemporâneo, o filme consegue captar o interesse do espectador com o passar do tempo. Apesar de um início muito caótico, as coisas vão se ajeitando e o longa ganha um respiro interessante, sabendo lidar com a lealdade e violência a partir da lógica dos negócios capitalistas institucionalizados (tal como a máfia em si). A cena em que Frank (Sergio Castellitto) pergunta “quem tem caneta?”, consegue ser engraçada pela brutalidade daquele universo, já apresentada anteriormente, mas que ali se formaliza como um projeto verdadeiramente capitalista. “Não quero selvagens, quero sócios”. 

A obra procura suas referências em “O Poderoso Chefão”, “Os Bons Companheiros” e outros clássicos do subgênero, mas acaba caindo em convenções mais contemporâneas. Esse retrato da violência no rigor de uma omissão, aproxima o filme mais da Europa que dos norte-americanos, por exemplo. “Máfia S/A” possui seu fetiche por violência, como a indústria tanto aplaude, porém foca esforços na ideia por trás desses atos e menos no ponto gráfico deles. Por isso, era de se esperar uma construção dramática mais incisiva que fosse capaz de incorporar tantos personagens em uma narrativa tão complexa. Ou é aquilo que Grou acredita. A trama é bastante simples e clichê, mas a montagem se esforça para cadenciar as histórias paralelas com uma dinâmica que trunca algumas das resoluções mais pragmáticas, algo bastante recorrente em projetos como esse, afinal é necessário transmitir para o público que esse submundo funciona em regras extremamente restritas e sistemas sofisticadíssimos. 

Existe um acontecimento que cria uma reviravolta grande na progressão, e é onde começam os problemas também. Enquanto o filme possui um eixo de atuação, as coisas fluem, a gama de personagens é menor, as tramas se entrelaçam menos e a proposta consegue algumas cenas interessantes, mesmo que algumas atuações comprometam o barato todo. Porém, conforme se aproxima para este ponto-chave, existe um esforço tremendo para apresentar elementos que exponham a dimensão dos problemas que a máfia enfrenta e como uma atitude ali é necessária (e suas consequências). As coisas ficam confusas, a montagem não consegue um bom ritmo e tudo começa a desandar. Os próprios laços familiares se intensificam, anunciando um rompimento ali, sem que o espectador crie empatia por boa parte dos personagens. Aliás, a maioria das motivações são unilaterais, sem que essa “ordem” do credo possa justificar atitudes mais diretas. Essa hierarquia do poder e do capital não parece ameaçada e tudo vai perdendo o sentido. 

Contudo, a direção cria algumas composições divertidas, como a sequência da tortura de Tommy e a invasão de uma reunião à todo vapor. Em outros momentos parece programática, como o alerta de Vince (Marc-André Grondin) a Frank. Essa falta de unidade e regularidade no grau de engajamento pela forma, faz com que o espectador passe ao automático, esperando uma vingança, tiroteios e mortes. Se no papel a ideia parece boa, “Máfia S/A” continua sua estrutura de acreditar na força do encantamento pelo poder do submundo, sua hierarquia, seus negócios, violência, lealdade, família e dinheiro. Os pilares são conhecidos, só que a facilidade que o próprio filme perde o interesse em suas relações, não motiva seu público. Sofie (Mylène Mackay) possui uma importância fundamental na narrativa, mas parece apenas um objeto dramático no meio de um mar de sangue sem fim. 

A corrupção moral da superestrutura do capital é um dado que todos os filmes de máfia exploram, com maior ou menor honestidade. E aqui, há um complô verdadeiramente interessante, onde o Estado é visto como facilitador do negócio, por estar de mãos atadas pelo poder financeiro que essas organizações possuem. Mas o próprio Estado não é parte fundamental da construção que “Máfia S/A” propõe, pois discutir um problema estrutural não dá dinheiro, mortes sangue e língua francesa, inglesa e italiana, sim. Sem grandes comprometimentos o clímax chega, o espectador esquece de boa parte dos detalhes que culminaram em todos esse acontecimentos e em mais algumas cenas onde a troca de língua é uma coisa arbitrária, fecha um enredo com bom início, encerrando em um cansaço programático. 

Trailer

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