Madame Satã

Karim e seu filme-entidade

Por Fabricio Duque

O brasileiro, cearense e argelino Karim Aïnouz, estreante na direção de um longa-metragem, realiza com “Madame Satã” um biográfico filme entidade sobre a personagem carioca da Lapa dos anos trinta do século passado. Uma experiência imagética, sensorial e visceral. O público é convidado a sentir. Uma imersão orgânica, fisiológica, de vida submundo, entre livres e libertários amores marginais. Nos é permitido invadir espaços e existências, por uma câmera próxima, de super close, que impede o distanciamento e aproxima a intimidade, tudo traduzido pela irretocável fotografia de Walter Carvalho, saturada ao artificial brilho da luz unida ao barroco-purpurina, construindo assim um paradoxo do olhar, ora realista, ora de fantasia projetada.

“Madame Satã” é um divisor de águas não só na carreira de Karim, mas principalmente ao cinema brasileiro. Pelo apurado trabalho técnico que incorpora o espontâneo e o comportamento de encenação coloquial. Um conflito que dá certo e fornece vivacidade e movimento ao redor. É também um grande conto de fadas, desconstruído, disfuncional e crítico, tanto auto, quanto alheio. Quando se diz que é uma entidade e/ou uma possessão, é muito por causa da escolha do baiano Lázaro Ramos para interpretar a personagem principal. O ator é uma força da natureza. Um monstro entregue a ser o que seu papel já é na essência, na forma e na naturalidade.

O longa-metragem, que nos infere ao misto de “Felizes Juntos” (1997), de Wong Kar-Wai, com “Plata Quemada” (2000), de Marcelo Piñero, é uma crítica ao conservadorismo condicionado, que chama o diferente e o que sai da curva de “desordeiro, pederasta passivo, dissimulado, cínico, de baixo nível social, negro, pobre, homossexual e um indivíduo propenso ao crime”, o cenário de um Rio de Janeiro, ainda Distrito Federal, em 12 de maio de 1932. O que o pernambucano João Francisco dos Santos queria, antes de adotar o nome de Madame Satã, emprestado do filme “Madam Satan”, de Cecil B. Demille, em uma fantasia no bloco de carnaval Caçadores de Veados? Apenas conseguir os sonhos (de um ambiente livre e estar com seu “herói curumim” com “olhos de madrepérola”) que via por trás das cortinas de um cabaré, ainda que numa zona de prostituição na Lapa. Um “mafuá devasso e fedorento”. Sim, caro leitor, de que os outros têm tanto medo?

Entre confrontos de macho, drogas, “anjos da bondade”, “gaita”, bebidas, músicas, gargalhadas da Fátima, “bichos peçonhentos”, “lengas”, ruídos vazados de sexo, violência e putas que precisam viver suas profissões vinte e quatro horas por dia, “Madame Satã” é uma ode ao liberdade com “bocas imundas” e um protesto à caretice. João, para sobreviver com “cabelo veludo” (um que de “Querelle”, 1982, de Rainer Werner Fassbinder), expressa-se na terceira pessoa e se defende (“na canhota”) com capoeira e com seus orixás contra “pau de fogo”, “baiacus” e “fadas ilusórias” (como a adoração à personagem Vitória de Renata Sorrah), e se utiliza do rebuscamento da linguagem, poética, literária e passional a fim de encantar corações, como o de Laurita (a atriz Marcélia Cartaxo) e/ou o de Tabu (nome mais simbólico não há pelo ator Flávio Bauraqui).

O ser, que “não é todo mundo”, que “já nasceu torto”, devoto de Josephine Baker, que antecede o status de Madame, é também defensivo (pela raiva no peito que não o deixa acalmar). Muito até, beirando à agressividade física. Um adquirido poder imponente e arrogante que acredita que para conseguir precisa gritar e mostrar força (e roubar se for o necessário), talvez para mascarar a vida de “desgraça” em que se encontra. “Madame Satã” é sobre desejo e maldição. Sobre a intensidade de como se viver. Sobre “malandros boneca”. Sobre despropósitos. Sobre o preconceito de “não confiar no preto”. De mostrar quem manda após anos de exploração. Sobre “malandros na rasgada”. Sobre “As Mil e Uma Noites”. Todo o filme é uma experiência. Um balé de cenas. De sinestesia real que se estranha e se acostuma.

“Madame Satã” é acima de tudo um filme de cenas, como por exemplo, o abraço nu de toque maternal, que representa a quebra do embrutecimento. Da obrigação ininterrupta de ter que ser forte. É lindo e de uma “felicidade extasiante”. “A vida é melhor quando dança e rebola”, canta-se. E/ou as referências cinematográficas de “Princesse Tam Tam” (1935, Assista AQUI), de Edmind T. Greville, que alimenta novas performances. Abrasileiradas e livremente adaptadas. Com colaboração no roteiro de Marcelo Gomes e Sergio Machado e trilha sonora de Noel Rosa, Lamartine Babo, Francisco Alves, Ary Barroso e Vicente Celestino, a obra em questão aqui é um acontecimento. Um carnaval estético que mostra a força inesgotável e não desistente da esperança da verdade nascida.

O dicionário, democrático e livre de vícios morais, define a palavra liberdade: “um substantivo feminino; nível de independência absoluto e legal de um indivíduo, de uma cultura, povo ou nação, sendo nomeado como modelo (padrão ideal); uma característica da pessoa que não se submete.” Destaque para Karine Teles vivendo seu primeiro papel no cinema como a ruiva. Em novembro de 2015 o filme entrou na lista feita pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine) dos 100 melhores filmes brasileiros de todos os tempos.

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