Lucicreide Vai Pra Marte

Os passos de um quarteirão

Por Vitor Velloso

“Lucicreide vai pra Marte” de Rodrigo Cesar é um dos bombásticos lançamentos deste início de março, já entrando na briga pela bilheteria do primeiro semestre no cinema nacional. Com uma produção e distribuição nos moldes de “Minha Vida em Marte”, “Minha Mãe é uma Peça”, “De Pernas pro Ar” e “Os Farofeiros”, o espectador já pode imaginar o tipo de humor que irá contemplar aqui.

O longa é uma espécie de continuação exemplar de tudo aquilo que vem circulando no cinema industrial brasileiro dos últimos anos. Até mesmo na maneira como mantém diversos arquétipos de nossa dependência na representação, desde o cenário norte-americano aos clichês que caracterizam cada um dos personagens. Temos o homem em crise, o religioso, a blogueira metida à besta (Meryl Streep receberia mais uma indicação ao Oscar) e… a nordestina comilona que “passa vergonha”. O barato se torna reacionário quanto há um esforço em despender uma personalidade brasileira a partir de estigmas regionais tão decadentes e preguiçosos como estes. É uma espécie de “Macunaíma vai a Marte em um concurso da Nasa”. Mas nada aqui funciona, desde as piadas sem graças e causadoras de vergonha alheia, aos arquétipos tacanhos que são utilizados apenas para reforçar “a superioridade dos EUA”.

Esse discurso de “nordeste chegando à Marte”, é o que os neoliberais do filme falariam com toda certeza. A busca por uma representatividade com o “aval” do neoliberalismo só pode terminar nesta força conservadora mambembe que se propaga à esmo pelos grandes produtores e distribuidores de produtos televisivos e cinematográficos. “Lucicreide vai pra Marte” é uma resposta reativa de um mercado que se mantém na dependência das janelas internacionais para manter alguma coesão financeira interna. Ou assim gostam de acreditar. Desde as piadas antiquadas e ultrapassadas, aos movimentos de câmera que dão aquele zoom no rosto da protagonista para vermos o quão “desengonçada” a “nordestina” é.

O problema aqui é que a soma dessas “pataquadas” e vexames humorísticos, acaba blindando a obra através do “ato recreativo”. A esquerda liberal encontra seus meios de lucrar de uma maneira segura com os estereótipos fomentados pelos conservadores. Enquanto a comédia vai pra Marte, Miami, Disney e afins norte-americanos, o Brasil segue carecendo de um humor que não retrata o próprio povo de uma maneira alienante. É uma espécie de propaganda inócua para gringo ver como o brasileiro faz comédia na TV aberta nos programas de fim de semana.

“Lucicreide vai pra Marte” é um projeto que não encontra força para manter o espectador na sala de cinema, faz um esforço monumental para expulsá-lo a todo instante e parece jogar na memória “afetiva” dos outros projetos de comédia que dominaram as telas nos últimos anos. Não possui nenhuma identidade, traz uma Fabiana Karla sem brilho algum, interpretando os piores estereótipos da TV brasileira e batendo continência para a bandeira norte-americana e a NASA. O filme funciona a partir de uma ideia de seriado cômico, onde nada tem graça e tudo é excessivamente entediante. Nem mesmo uma cena consegue arrancar um penoso riso de desespero diante da decadência ali apresentada.

Com o passar das semanas, o que ficará conhecido do longa é sua exibição “gratuita” pelo Big Brother Brasil que os telespectadores puderam conferir. Se o conselho da saúde é: fique em casa. Faça isso. Não fique em uma sala com ar condicionado ligado com estranhos e debatendo os grandes feitos estéticos e cômicos de “Lucicreide vai pra Marte”. Tudo que poderia dar errado no projeto, dá. E não apenas porque a base da narrativa é frágil, mas por uma falta de consciência na hora de compor a partir da forma o que veríamos na tela. É um descompasso contínuo que nunca encontra seu caminho por estar indo atrás dos sucessos de bilheteria, sem tentar encontrar os próprios passos diante do público. O que nos resta é uma obra que não consegue se encontrar nem nos próprios particulares do “blockbuster” nacional, que é lançado em meio à pandemia por saber que não atingirá as expectativas das outras distribuições que servem de apoio.

Trailer

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