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Longa noite

Velho testamento

Por Vitor Velloso

Durante o Olhar de Cinema 2020

Atestado de falência ideológica e intelectual, “Longa Noite” surge como um documento contra a repressão e a ditadura, um ode à luta anticapitalista e uma frente de suspiro na produção cinematográfica progressista. Atinge no máximo a infeliz concordância com o incrédulo energúmeno do Magnoli, acerca do pensamento de esquerda. É com profunda tristeza que o anúncio venha acompanhado de uma coleção de festivais relevantes, entre eles Locarno e Roterdã. É a prova da fragilidade das produções contemporâneas que miram atingir algum grau de maturidade frente às forças reacionárias.

Aliando-se à pior intelectualidade burguesa, “Longa Noite” de Eloy Enciso, surge como a ciranda festiva de um materialismo vulgarizado pela inocuidade da luta política sem o Sebastianismo de outrora. É necessário fazer uma análise crítica das frentes ideológicas, econômicas e sociais, reconhecer parte dos erros nas abordagens. Criar academicismo tacanho, canhestro e preguiçoso em torno do materialismo e do debate acerca da dialética, é estar compilando anos de conhecimento marxista vulgar e estruturando como a frente cultural que se instalou nos países cristãos. É o alinhamento máximo de uma postura amedrontada com a História, sem reconhecimentos graves de seus acontecimentos como particularidades de um monumento que nos corrói, nos trópicos, nos terceiros mundos, no subdesenvolvimento e no capitalismo dependente. 

É a negligência eurocêntrica do grau da complexidade nas bordas desse processo centralizador intelectual burguês. O complô mesquinho que é feito aqui, em torno dos louros possíveis que serão dados pela crítica de cinema vulgar, devem ser denunciados como outrora Glauber denunciou o Sebastianismo como a ressurreição de Cristo no terceiro mundo, enquanto cavaleiros do apocalipse. Glauber os ressuscitou. Matou. Transformou a figura Santa, em movimento de batismo, em ser popular. Ordinário. Mas “Longa Noite” é a antidialética dessa compreensão, é o retrocesso ao conservadorismo burguês intelectual, sempre disposto a derrubar o imperialismo, jamais disposto a se despir diante do processo revolucionário. É a antropologia medonha, farsante. Um discurso que urge em proclamar a própria dependência e liberdade, sem antes reformular as bases de seu país. 

E o filme faz isso como ninguém. Articula um arquétipo convencional, pragmático, de planos fixos. É o estoicismo em retorno à cristandade e ao aval burguês de produção. As falas expositivas retomam o didatismo reacionário para que as entranhas sejam expostas. Infelizmente, a estrutura arcaica da obra, consome a exposição em miséria intelectual, corrói as bordas, centraliza novamente as representações. Minimiza os danos de seus próprios inimigos, pois se reconhece ali. Como um farsante que odeia o espelho, acusa os planaltos, as planícies, a política, a burguesia, o capital, mas seu ego jamais o permite descer do pedestal de autor-produtor, para que seja implementado um olhar crítico de si. É o romantismo da burguesia. De uma revolução cultural, sem as bases políticas de Mao. Muito menos a força de Fidel. 

“Longa Noite” faz efetivar seu título. Monótono e divagante como soa ser, cura insônia e reativa o espírito reacionário da produção marxista vulgar. A cinematografia escolhe seu lado, representa quem bem entende. Os estereótipos são múltiplos, mas possuem unilateralidade em sua interpretação. Não há base material para as próprias falas que são ali expostas. É o problema denunciado por Benjamin, Lênin, Rosa Luxemburgo. Às bases materialistas, históricas e dialéticas da alta burguesia europeia são os reforços da mesma. Pois vulgares como são, não são ultrapassados. Não abrem às críticas. Estão sempre na retroalimentação, automasturbatória de quinta categoria. São as veias abertas da burguesia europeia, “de esquerda”, mas reacionária. 

Não precisamos ir longe nas referências, Glauber já disse que toda produção que se preze ao progressismo, ao aliar-se à forma reacionária, mantém a segunda como frente política dessa produção. Não há concessões a serem feitas, não há radicalismos a serem discutidos ou mesmo didatismos possíveis. Uma obra reacionária que busca o tom “de esquerda”, atinge única e exclusivamente o mesmo reacionarismo que o criou, não há parâmetros que atinjam o contrário. Está claro que é possível realizar uma obra de cunho canhestro e ainda ser efetiva em seu discurso, ou mesmo obras-primas. Não é o caso de “Longa Noite”.

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