Les Démons de Dorothy

Os demônios, as comédias queer e o cinema

Por Vitor Velloso

Durante o Festival de Locarno 2021

“Les Démons de Dorothy”, de Alexis Langlois, surge como uma resposta à indústria cinematográfica, utilizando-se da forma e das ideias da mesma, para se opor ao sistema repressivo que concede prêmios, status e facilidade na próxima produção. É um produto que não enfrenta as amarras do mercado, pelo contrário, tenta assimilar os estereótipos como forma de “transgressão”, uma espécie de didatismo hiperbólico.

São os clichês que ganham forma, o esteticismo vulgarizado, a cosmética do gênero, os fetiches industriais catalisados por uma único desejo: provocar e ser “autêntica”. Esse desejo pelo palco de Cannes, inevitavelmente a janela que a cinefilia mira com tanto gosto, é uma criação tacanha do que significa os laureados pela panela. Existe uma fórmula para estar presente no festival francês (entre elas conta fortemente não ser latino-americano, em caso positivo, defenda os interesses europeus) e ser premiado, e “Les Démons de Dorothy” parece ter consciência disso, mas caminha para o mesmo lado ignóbil do mecanicismo, como quem provoca pela provocação e faz arte pela arte. Aliás, a sensualização estética das cores vibrantes, motos velozes e cosméticas exacerbadas é como uma exaltação dessa liberdade.

Mas como manifesto-autoral, se une aos demais na mais-valia ideológica engolindo cada centímetro. Toda sua idealização passa por uma industrialização e decadência programada. Nesse sentido, o curta materializa esse espírito em uma espécie de antagonista e virtualiza sua presença nessas multiplicidades formais ao longo dos anos. A “reinvenção constante” é esse objetivo que poderia ser atravessado na utopia do “seja você mesmo”, porém o enfrentamento com os demônios pessoais é esse imbróglio criativo que se soma à necessidade de ser menos “você”, para alcançar alguns sonhos. Aliás, quantos cineastas não conhecemos que serão eternamente negados nos grandes festivais pela alienação formal da curadoria? E a produção então… nem se fala.

“Les Démons de Dorothy” consegue provocar algum estranhamento pelo seu dinamismo, um frenesi de zooms, cores, monstros, motos, sonhos, exibições etc. Ainda que se utilize de tudo que aparentemente desgosta como “formulaico”, mas parece consciente disso e não sente remorso algum em idealizar o sucesso a partir de suas particularidades.

Trailer

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