Lee
Memória de Quem Não Sabe
Por Letícia Negreiros
Histórias sobre a segunda guerra permeiam o cinema praticamente desde que se iniciou o conflito. Ellen Kuras traz um aditivo à categoria com “Lee” (2024), longa que retrata a relação de Lee Miller (Kate Winslet) com a fotografia e sua participação na documentação da Segunda Guerra Mundial. Antony (Josh O’Connor) extrai dela essas histórias mediante uma entrevista. Já tendo se aposentado, começa a fotografar para a Vogue inglesa e, com o auxílio dos Estados Unidos, se torna correspondente da revista durante a Segunda Guerra Mundial. Miller, como o filme demonstra, foi uma mulher bastante plural. Conhecemos uma Lee sedutora, energética, que vive para aproveitar e esbanjar. Seu ímpeto errante sofre alguma alteração com a chegada de Ronald Penrose (Alexander Skarsgård) e com o avanço da guerra. Consumida pela agonia de impotência, se joga no mercado de trabalho, demandando espaço e voz em um ambiente de difícil inserção.
Kuras traz promissoras propostas para “Lee”, abordando a dificuldade de atuação feminina, mesmo em tempos de crise, e pincelando o etarismo presente em diversos segmentos da sociedade – além de trazer os horrores do tempo histórico que narra. As promessas feitas em seu roteiro começam de forma promissora. O contraste da vida luxuosa do pré-guerra com o progressivo murchar de regalias e oportunidades dá um terreno fértil para a revolta de Miller florescer e se fortalecer. Seu desespero é forte e causa alguma simpatia por nascer da vontade de ajudar, não da autopiedade pelo que perdeu.
A indignação, mesmo que apoiada em motivos plausíveis e reais, é pautada em frases de efeitos impactantes, transmitindo uma maior preocupação com as aparências do que com a mensagem. Kuras nos entrega diálogos de vitrine, com ambições de serem lembrados, sem se preocupar que pareçam esvaziados de significado na maioria das ocasiões. O impacto de fachada ressoa na recepção dos demais momentos do filme. “Lee” se apoia na brutalidade de sua localização histórica para arrancar de nós alguma emoção. As fotografias de Miller são chocantes e o longa deve a elas parte significativa de seu peso dramático. Seus personagens e acontecimentos pessoais se tornam planos, não nos alcançam de fato. Não há um envolvimento do roteiro com aquilo que de fato causa emoção no longa, a narrativa se desvincula.
E voltamos, então, à personagem de Winslet. A planificação ecoa na forma como ela é retratada. Antes, uma burguesinha irreverente e cheia de si, colocada em um pedestal em seu ciclo social. Lee se esforça demais em ressaltar como Miller era diferente das outras mulheres ao seu redor, mais interessante, mais especial, de maior destaque. Depois, quando somos apresentados a sua revolta, há uma esperança de que o roteiro quebrará essa imagem, nos mostrando uma Lee completamente nova. Em partes o faz, mas substituindo a imagem burguesa pela de salvadora, ainda reforçando como ela se diferenciava.
O longa, porém, não falha em todos os momentos. A amizade de Lee e Davy Scherman (Andy Samberg) é uma ilha de sentimento em meio ao mar de apatia. A cumplicidade desenvolvida pelos dois é interessante e divertida. A relação é explicitamente platônica desde o início e um dos poucos momentos em que não se coloca Lee como uma figura acima dos demais. Com Davy ela não é uma musa, é apenas uma amiga, mais uma pessoa sofrendo com a guerra.
Graças aos dois, recebemos um dos respiros de emoção do filme. Davy, judeu, rui diante das atrocidades cometidas a seu povo. O abraço que troca com Lee desperta uma centelha de dor, uma das poucas que verdadeiramente deriva da narrativa. Acredito que venha da origem do gesto, nascido da única relação envolvente. Há, ainda, mais dois momentos em que a obra de Kuras nos arranca alguma reação por mérito. O reencontro da fotógrafa com Paul Éluard (Vincent Colombe) e Nusch Éluard (Noémie Merlant) também traz um peso ao coração, pela menção ao poema Liberté e pelo eco que a amizade do trio faz com a relação de Lee e Davy. O ápice dramático da trama é de mérito total de Kate Winslet. A raiva pura e genuína transmitida por Lee ao ver que suas fotos não foram publicadas pela Vogue inglesa em sua edição da vitória é hipnotizante. Se destaca mais ainda em comparação à sensação rasa que gere o filme. É desesperador vê-la destruindo os negativos. Finalmente entendemos sua agonia diante da impotência.
“Lee” encerra-se nos apresentando o presente da vida da fotógrafa: seu filho. Antony só descobre quem de fato foi a mãe após a morte da mulher. Kuras nos torna aliados do menino na jornada que é desvendar Lee Miller. A mulher entrevistada é apenas a encarnação de uma lembrança. A ideia, por mais inventiva que seja, é desconexa. O diálogo com o fantasma de sua mãe não se mistura à narrativa que monta para nós. É estranho, alheio e é assim que ele se sente. Descobre que sua mãe era uma desconhecida. No entanto, a blocagem de momentos isola as linhas narrativas. Não há uma conexão visual ao que se vê no passado de Lee e na conversa com Anthony. Novamente, não há um envolvimento, dessa vez entre roteiros.
O longa-metragem foi lembrado no Globo de Ouro 2025, representado por Kate Winslet. A indicação veio na categoria de Melhor Atriz em Filme de Drama. De fato, o grande acontecimento do filme, que, afinal, acaba por ser um interessante contato com a obra de Lee Miller.