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Lavra

Imagens minadas

Por Ciro Araujo

Durante o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro 2021

Lavra

Existe uma tendência no filme documental de ser aproveitador de seu próprio tempo, que observa atentamente o momento em que se produz para pegar algum embalo. “Lavra”, que começou a ser feito anos antes, quase uma década anterior ao seu lançamento, parece sofrer dessa oportunidade gerada. Não é de hoje que o impacto ambiental causado pela mineração se aplica no país, mas o presente evidencia o que é divulgado pelo filme de Lucas Bambozzi. Uma verdadeira lama escorre no país, misturada no sangue de milhares, que se dilui na água. 

Inicia-se através de cenas remetentes a “O Regresso”, de Alejandro Iñárritu, brilhantemente arquitetado pelo diretor de fotografia Emmanuel Lubezki. O importante aqui é que, um paralelo, mesmo que talvez não intencional, é traçado a partir dos primeiros segundos do filme do mexicano, onde Lucas, junto com seu fotógrafo, Daniel Aragão, produzem lamas que fluem na tela, para a direção de baixo da câmera. Um sobrevoo pelo estrago. O que em Hollywood é água, aqui é terra molhada, que mata. A narração se inicia e é enfim reconstruída o imaginário desastroso brasileiro. A voz é de alguém distante, comum na atualidade do país, que percorre o sentido contrário, atuando como uma investigadora para entender tanto as repetições na nação. O Brasil não faz mais parte dela por inteiro, ela o desistiu inicialmente. Tantas figuras que já cederam, esquecendo do fardo de nascer por aqui. 

Camila que retorna torna-se uma detetive. Através de pistas para o genocídio disfarçado de desastre que ocorrera em Mariana, a geógrafa procura compreender essa ligação e a obsessão do país na mineração. O mais óbvio, o nome: Minas Gerais. Um estado dividido por uma função, que permeia, todavia, pelo território, também como uma necessidade de negócio. Lucas Bambozzi compreende que é aqui que deve ser seu objeto e objetivo dentro da narrativa híbrida que é criada. E então, ocorre o rompimento da barragem de Brumadinho. A relação do documentário ser aproveitador torna-se mórbida, claro, mas necessária. Tão oportuna. Naquela época ficou famosa a expressão “tragédia anunciada”. Essas duas palavras juntas são tão utilizadas no Brasil, é quase cômico. “Lavra” então entende seu dever como não apenas um filme escrito, mas presenciado. A investigação suga o DNA dos mais conhecidos filmes hollywoodianos policial. Empresas obscuras, um mapa observado constantemente, pacatas cidades. 

As vilas no interior mineiro tornam-se um desejo da narradora, então. Não existe a noção do tamanho de um rio. O sul de Minas se transforma, mesmo quase três séculos após o fim do ciclo do Ouro. É como um instinto do estado, um valor intrínseco. O trabalho ao redor da atividade transforma as populações em serventes que dependem. Agora, a geógrafa está em um filme de estrada, propícia para a região. Manifestantes tentam, com muito esforço, afastar qualquer extração do solo ao redor, traumatizadas por duas avalanches de terra. O filme se desfecha antes, mas hoje, em 2021, ainda há conversas a respeito de como a terra ao redor se regenera, se cura. O garimpo ilegal no Norte do país em paralelo cria um outro imaginário, diferente, mas sob a mesma atividade de mineração. Se, aquele que é uma atividade legalizada é também praticada de forma ilegal – não confundir com amadora, pois, de nada amador existe na questão –, de que adianta trabalhar para regularizar ou advogar através da procura de alguma forma tal existir?  

A busca de Camila vira narrativa em seu terceiro ato. O que antes foi um “Viajo porque preciso, volto porque te amo”, de Karim Aïnouz, agora é muito mais uma poética narrada. O filme perde um pouco do gás solto pela tensão criada anteriormente. Em um momento prévio, a proibição: “Precisa de autorização para tirar foto daqui”. Agora o ficcional vence para sugar uma afeição. Parafraseia-se aquela frase precedente: O rio é realmente bem maior que parece e atinge a todos, uma hora ou outra. Os olhos que a atriz enxerga, no caso a câmera ou que ela própria filma ou que sempre a observam de costas, sem que seu rosto apareça, nos ensinam e apontam os medos. “Lavra” é muito mais sobre uma angústia e terror daquilo predisposto, da expressão tão monótona “tragédia anunciada” que normalmente a classe média é craque em repetir, porém que define a realidade. O Brasil é anunciado.  

4 Nota do Crítico 5 1

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