Lanternas Vermelhas

O realismo lírico

Por Fabricio Duque

O diretor chinês Zhāng Yìmóu busca conservar a tradição chinesa, retratando costumes e regras sociais antigas. Os temas são comuns, quase banais. O que os posiciona em um patamar cinematográfico elevado, é a forma que Zhang trabalha os elementos. A cenografia é o diamante bruto de suas obras. Ele imprime grandiosidade, luxo, cores vibrantes e contrastada, com planos simétricos e imponentes. Em “Lanternas Vermelhas”, aborda-se a vida de uma garota que está prestes a se casar com um homem que já possui três esposas. As quatro armam todo tipo de intrigas na disputa pelos privilégios e confortos que a preferência dele proporciona. O filme foi indicado para o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Ser mais uma companheiro é um costume antigo e aceitável, não questionado. “Você se acostumará com isso”, diz a criada quando faz massagem no pé da recente casada. O roteiro transpassa simbolismos como crenças.

Acreditar que acender lanternas vermelhas é uma forma de boas vindas corrobora o misticismo de uma religião massificada e tão entranhada na vida dos indivíduos que a seguem, sem a revolta e ou curiosidade do rebatimento (até como forma de se conhecer realmente). O principal em sua obra é revelar sentimentos perdidos na alma, escondidos no próprio ser. Há a exposição do que se é realmente, abolindo máscaras. Inveja, submissão, pequenas vinganças, crueldade, resignação, essas são alguns dos elementos que vêm à tona quando se decide mitigar toda e qualquer forma de salvação humana, que se encontra no interior de cada um. A sordidez é exposta sem limites, exteriorizando os jogos sociais e a manipulação para que se consiga o que quer. A fotografia alaranjada com sombras coloridas cria o realismo lírico e seco. O espectador mergulha na história e descobre a cada momento passado que não existe mesmo a salvação. “Eu gosto de claridade e formalidade”, diz-se. A figura da mulher necessita, para a sobrevivência, aceitar o fato de que não possui direitos, então sofre-se quieta e calada. A boa conduta entre as esposas reverbera a hipocrisia social. “Precisa servir bem o senhor (marido)”, diz-se.

Os personagens interpretam mudanças de humor e percepção pelas expressões faciais sutis e empenhadas. Isso gera um convencimento realista e natural da trama que se apresenta. Há estéticas em termo de fotografia. Pálidas, gélidas, tendo a cor vermelha (acetinada), mecanismo do abstrato que se deseja mostrar como concreto. Provocações, picardias, sarcasmos, ciúmes, quereres exacerbados – e mimados, medos da perda do que se conseguiu, posse e competições, jogando Mahjong, um jogo de tabuleiro chinês muito intrigante. Há o existencialismo verdadeiro. Uma das esposas é cantora de ópera, decorando, com máscaras teatrais, a casa como um palco, alude-se às encanações para conseguir positivamente os resultados. A trama passeia pelas quatro estações. Apresenta-se ao espectador a gradual trajetória da sordidez e suas consequências. Quem joga melhor, consegue benefícios. “Se representa bem, engana os demais”, resume-se. “Todos conspiram. Que sentido há nisso?”, rebela-se. Os mais sensíveis somatizam culpa, sem continuar vivenciando a frieza. Uma das opções é a loucura ou fazendo viver os fantasmas. Concluindo, um filme intenso, aprofundado, gradual, que prende a atenção total do espectador pela simplicidade e competência. Zhāng Yìmóu é um gênio e sabe escolher muito bem os seus atores. Recomendo.


Balé Nacional da China: Lanternas Vermelhas

Zhāng Yìmóu dirigiu o espetáculo “Lanternas vermelhas” em algumas cidades do Brasil. Eu assisti no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Ele conserva a imponência, grandiosidade e magnitude da história. A diferença é que no Teatro, a trama modifica-se ao abordar a vida de um senhor com três esposas. No filme são quatro. As cenas são magistrais. Há um imenso cetim vermelho em cena. Há lanternas vermelhas. Há neve. Há a suposição da crueldade das mortes. É intenso, incrível e arrebatador. Saí com a sensação de ter vivido uma experiência única. O espetáculo tem coreografia de Wang Xkinpeng, música de Chen Qigan e destaca-se pelo inovador conceito de iluminação e por suas soluções cênicas, que parecem levar o espectador para dentro de uma cena de cinema, como também pelos maravilhosos figurinos e pela perfeição técnica dos solistas e corpo de baile.

A ação do espetáculo se desenrola nos anos 1930. Uma jovem é forçada a tornar-se a terceira esposa de um velho senhor feudal. Suas duas enciumadas esposas a recebem com relutância. O quarteto passa o tempo jogando “mahjong” e assistindo em casa aos espetáculos da Ópera de Pequim. O senhor e suas três esposas levam o jogo ao extremo de interagirem com os atores. Em meio às performances, a terceira esposa acaba se deparando com seu amante, um especialista em artes marciais do elenco da Ópera. Mas o segredo do casal é descoberto pela segunda esposa, que os denuncia ao marido. Para sua surpresa, ao invés de cair em suas graças, ela só consegue enfurecer seu amo e acaba por enlouquecer. No final, a estrutura da tensa família feudal, colocada em xeque, acaba por se esfacelar em um banho de sangue.

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