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Lamb

Baixa amplitude

Por Ciro Araujo

Festival de Cannes 2021

Lamb

Criticar um filme é um ato que sempre por consequência será afetada como um produto de seu tempo. “Lamb”, de Valdimar Jóhannsson, parte do contexto necessário de comparar com outros longas-metragens de terror nesse ambiente de “filme-arte”, ou seja lá o que queiram chamar o gênero (i.e. pós-terror). A obra islandesa abre através de um conceito base na qual o ser humano através se identificaria; neste caso, o luto; e afunila em um vale da estranheza ao tratar do tema geral na representação; uma criatura meio cordeiro meio humana. Muito da concepção do terror contemporâneo se interessa pelo que está longe da compreensão humana. Na linguagem cinematográfica, entretanto, o thriller recai na armadilha que mais caem: a chatice e pouca amplitude criativa, um também sintoma dos filmes produzidos pela A24.

Chega a ser cômico como obras da produtora (A24) mesmo com estúdios, produtores e equipe completamente diferentes possuem uma constante dentro da estética do horror. Uma ideia de misturar o slow-burn com aquilo que afeta o homem através de uma modernização tanto de montagem quanto de efeitos visuais. São muitos a lista de longas-metragens para citar as metáforas que o gênero procura como representação de sentimentos. Uma talvez condição humana definida pelo suspense, na realidade, um tema originário que muitos autores tenham como preocupação para tratar em seus filmes. A partir dessa obsessão metafórica, Jóhannsson estuda em sua obra a questão da individualização dos planos, uma atenção ao medo e atmosfera dentro de cada horizonte filmado. A textura enevoada das paisagens islandesas permite um minuto de contemplação. Um minuto ou cinco, para o cineasta tanto faz. O tempo para ele é mera coincidência para uma imagem estática e som sobrenatural. Remetendo à introdução do texto, um produto de seu tempo faz-se necessário de uma crítica contextual. Eis, então, a questão: o que “Lamb” realiza que nenhum outro da mesma produtora conseguiu? A resposta é mais amarga do que desejável, um simples “nada”. E realmente, o filme de Valdimar caminha por literais territórios montanhosos até encontrar o figurado: nada além de imagens simplórias que determinam a representação de emoções humanas. O longa então pede, de joelhos, uma empatia por caridade.

Está claro uma das gêneses da estética que cresce nesse gênero art-house: “Possession”, do ucraniano Andrzej Żuławski. A relação entre um casal com problemas; um monstro (ou algo anormal) que representa as divergências dentro do relacionamento, o ritmo lento, mas que define que algo está errado dentro do roteiro. São filmes de nuances imagéticas, que fazem objetos filmados terem novos significados. Infelizmente, o caminho que Jóhannsson não é apenas de um mormaço necessário, mas de uma pouca amplitude de possibilidades. Afinal, o cinema como arte possui um claro caminho de encontrar novos direcionamentos, ou ao menos algo refrescante. Irônico para um país gelado essa sensação seja o contrário: é um filme que cansa, esquenta, longe do confortável. Bem, um poderia associar com uma forma de atiçar o espectador. “Ghost Story”, mesma produtora, procurava isso, na infame cena comendo uma torta por cinco minutos. A polêmica que traz consigo ainda não quebra o argumento de que é nada além da imagem. Em uma clara tentativa de dinamizar o texto escrito pelo diretor junto com seu roteirista e poeta conhecido como Sjón, há a decisão de introduzir um novo membro da família, que começa a questionar também dentro o relacionamento dos dois protagonistas (interpretados pela atriz Noomi Rapace e ator Hilmir Snær Guðnason). Um artifício que acaba muito mais como dispositivo para futuras pesquisas compreenderem a própria máquina roteirística de produzir novos interesses dentro da estrutura. Isto é, sua história é limitada, em palavras mais simples e diretas.

Claramente “Lamb” acompanhado de uma estética indiferente entrega um texto sem possibilidades, o que poda automaticamente quaisquer de suas interações com os excelentes efeitos gráficos que o filme entrega. Certo que não haveria muito erro graficamente por procurar um realismo ao misturar duas criaturas já esquisitas (humano e carneiro), mas a visão estática de um animal sem expressões humanizada realmente entrega o mínimo, um medo que se cria dentro das entranhas. Ainda assim, esse é o limite do filme de Valdimar, padecendo muito mais de um mal de estúdio. No final das contas, parece ao menos que a A24, uma produtora que procurava ter uma certa independência na política de auteur dentro da indústria norte-americana, acabou entrando em uma espiral de estética chapada e pouco além de um limite gráfico que já se criou, independente de sua contribuição dentro da própria obra. Saturação, o nome. É um teto criativo que anda muito difícil de se ultrapassar.

1 Nota do Crítico 5 1

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