La Gomera

A maestria da estranheza dos assobios

Por Fabricio Duque

Durante o Festival de Cannes 2019

Exibido na mostra competitiva oficial a Palma de Ouro do Festival de Cannes 2019, e que recebeu Menção Honrosa com o troféu Vertentes, “La Gomera” corrobora uma das características essenciais do cinema romeno (a Nova Onda), que é a humanização da moralidade pelo estudo de caso da ética social. Utiliza-se assim um roteiro de comportamentos absurdos e atípicos, mas acostumados ao longo da trama. Não são mais estranhos, e sim partes integrantes de uma confusa realidade, como a comunicação-conversa (uma “nova língua” para a troca de avisos) por sons-sussurros  de pássaros projetados pela boca.

“La Gomera” (“The Whistlers” ou em uma tradução literal, “Os Assobiadores”) é um filme policial de humor negro. O sarcasmo retroalimenta a violência em um noir futurista de estética pop mais hipster vanguardista, que se conduz pela epifania de um sonho duplo, em cores vivas de um neon azedo e o rock de melancolia revolucionária de Iggy Pop em “Passenger”. Sim, somos todos passageiros de uma grande viagem da própria vida, de trilha sonora deturpada, que transforma “Valsa das Flores – O Quebra-Nozes”, de Piotr Ilitch Tchaikovski, em um pesadelo ruidoso e sobressaltado.

O longa-metragem equaliza precisamente silêncio com barulho. Contemplação ambientada de uma vista co a agilidade da surpresa de um gênero típico de ação. Sim, Corneliu Porumboiu possui controle absoluto de sua direção, revisitando seu filme anterior “Policia, Adjetivo” com toques de Martin Scorsese e Quentin Tarantino (este principalmente em “Era uma Vez em… Hollywood”), mas conservando plenamente a autoralidade da criação. De “capital das canárias” a celulares desligados para “despistar”.

“La Gomera” desenvolve-se por capítulos fora do tempo presente. O escritor Edgar Allan Poe consegue traduzir a sensação quando disse que “Tudo o que vemos ou pareceremos não passa de um sonho dentro de um sonho”. Uma mansão paradisíaca em uma ilha espanhola, close nos detalhes, o tempo de um cigarro, espiões fingindo e fugindo à moda de “007″ vigiados, tudo parece ser uma estendida bad trip de um LSD vencido. As personagens adentram na intimidade da mentira para criar a verdade, inclusive a cena de sexo. Real? A linguagem dos pássaros (a “língua debaixo do dedo” – a mesma “linguagem dos filmes de faroestes famosos”) destoa como se fosse um treinamento “Matrix” de espionagem. Há uma estranheza espontânea. Com suas interferências externas e interrupções. Um cotidiano diferente que de tanto assistirmos torna-se normal. Um passeio esquizofrênico? Uma paranoia coletiva? Um humor natural e de crítica social, que coloca “ópera alta no hotel para educar os clientes”, envolto em firmes atitudes nas ações e nos diálogos.

Nós percebemos toques e manias que podem ser pistas de que a realidade que vemos é a mais pura fantasia. Que precisa “implantar provas para ajudar no caso”. A narrativa majestosamente não caí na armadilha de “ajudar” e assim continua com a construção de um tempo pausado e com o silêncio após o discurso ultimato, seguido de uma observação da vida ao redor, da cena do crime, de um confuso interrogatório em um Set de cinema e de um “jogo de gato e rato por dinheiro”.

“La Gomera” também é um filme cinéfilo. Que referencia os “grandes”, como por exemplo a cena sugestiva de “Psicose”, de Alfred Hitchcock. Ao mesmo tempo que aumenta o tempo do túnel, gera a paródia, desencadeando férteis perspectivas mentais de teorias da conspiração. Aqui, o surreal é personificado e o surto psiquiátrico aceitado, com gângster e mais óperas.

Toda nova obra de Porumboiu é uma experiência. Que foge do convencional e se aventura em uma jornada, neste, não linear e estreante na categoria principal de Cannes. E o “maior filme que já fiz”. Nós somos convidados a participar de universo excêntrico (de tipos humanos) e concreto ao mesmo tempo, que se inspira na arcaica linguagem de assobio usada na ilha de La Gomera. “No começo, fui atraído pela estranheza dessa linguagem e, ao mesmo tempo, por um certo tipo de poesia. A partir desse ponto, o filme chegará a outro lugar”, finaliza o realizador na coletiva de imprensa no Festival de Cannes. Nas Ilhas Canárias e Singapura, ele encontrou a sadia sátira, de precisão microscópica, dos mínimos detalhes da vida romena. Um cineasta que com inteligência e muito bom humor consegue traduzir os meandros de seu próprio povo. 

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