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King Kong em Asunción

À procura do mesmo raio

Por Fabricio Duque

Durante o Festival de Gramado 2020

O ditado popular nos ensina que quando alguém se acostuma com o ótimo, não aceita mais o mediano. E dito também que um raio não cai no mesmo lugar, salvo raríssimas exceções. Em seu mais recente filme, “King Kong em Asunción”, o mais aguardado e esperado da mostra competitiva da edição especial online do Festival de Cinema de Gramado 2020, o realizador pernambucano Camilo Cavalcante tenta vencer a sabedoria empírica e repetir a conjunção dos universos, céus e infernos quando gerou a obra-de-arte “A História da Eternidade”, uma experiência tão livre e liberta de si mesmo, que deixou de ser projeção e já nasceu essência.

Neste, a construção busca referência, abrigo e ingenuidade em suas produções anteriores, retirando de cada um um elemento complementar. “King Kong em Asunción” é uma jornada. Uma travessia atravessada de limpeza para expurgar os pecados. Uma liturgia de penitência. De sentir o movimento físico com o objetivo comungado de salvar e limpar a alma. Um assassino que sai do vazio do deserto (o inferno) ao “progresso” da cidade grande (o céu). O meio, o purgatório. O filme desenvolve-se pela sutileza bruta do personagem, o ator Andrade Junior, falecido recentemente, recebeu aqui homenagem eterna, logo nos créditos de abertura.

O longa-metragem, também escrito e fotografado pelo diretor, envolve o espectador por sua câmera subjetiva, de atmosfera etérea, como se fosse uma epifania metafísica, evocando o sensorial para assim, com uma narração indígena, de ancestralidade transcendental (“que não oferece juízo”) pensar a memória, “um percurso instável”, e abordar a “história de um homem que inventou para si o amor e os laços”. Camilo consegue com sua câmera filmar o abstrato, personificando o invisível, com fluidez e cadência contemplativa, como um balé imagético, distante e próximo aos olhos, que aproxima, inclui, protege, liberta e se desapega do espectador, tudo ao mesmo tempo e espaço, com seus silêncios e espera dos silêncios, movimentando-se sem se dar conta que é preciso andar. É leve e organicamente coloquial. Sua potência é ajudada pela paisagem naturalista, cujos fusões de imagem sujam a tela com estéticos borrões. É uma viagem road-walk-movie entre o invisível e o visível de um “velho que recorre a distâncias” e que quanto mais chega próximo ao “céu”, transmuta-se em um estrangeiro incompatível no cenário que passa.

“King Kong em Asunción” então abre permissões. Liberdades didáticas e poéticas. De se perder na própria criação, por gatilhos comuns, palatáveis ao entendimento e facilitadores no roteiro. Uma dessas cenas é a da “visita dos mortos”, um artifício clichê, de exagero cênico, quase colocando tudo por terra o que de forma magistral construiu. Talvez pelo desequilíbrio do silêncio do antes e a explosão de vozes. Soa irregular. Sigamos. Outra cena é a chegada do bar. Crível de início para depois, mais uma vez, despontar no excesso interpretativo e na fragilidade das frases do roteiro. A partir daí, até a narração fica mais mastigada. Neste momento, nós nos perguntamos se uma fotografia impecável e uma trilha sonora conectada podem fazer co que o filme não precise mais das outras etapas do processo. Observações críticas ao político-social, teatros de rua, câmera na mão na ação. Será empuxo ou vida?

Entre altos e baixos, o filme constrói, desconstrói e implode. Fica estereotipado, simplista demais. Contudo, a cena em que o Velho “bicho” treina no espelho para falar com a filha, que soa cândido, vence o próprio gatilho comum ao estendê-la ao campo do monólogo existencialista, enaltecido logo a seguir por uma meditativa trilha sonora. Assim, o protagonista adentra na perdição do mundo. No submundo. Quadros “vingados” e prostitutas “ambiciosas” (à moda de “Bem-Vindo a Nova York”, de Abel Ferrara). Quando os meios de locomoção mudam, as músicas também acompanham o ritmo. Está mais sentimental e romântico. A penitência acabou?

“King Kong em Asunción” aceita o próprio caminho. A mudança narrativa e incorpora até o fim, sendo “macho gorila”. “A solidão às vezes permite até que a gente seja poeta”, diz-se, entre navalhas confiáveis, remix de Coldplay, incursões à la Gaspar Noé (em “Clímax”), “suor”, “gozo”, “algum cheiro”, “alguma lágrima”, “algum sangue”, “distante de um corpo sem resposta”, tapa pausado, digressão direta (dizendo de uma vez por todos que tudo será totalmente explicado) e metalinguagem (para ajudar de vez a destrambelhar tudo). O que as pessoas têm contra a sutileza, a sugestão e a possibilidade de se pensar aberto?  Pois é, a “voz do povo é a voz de Deus”. Nunca discuta!

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