Julieta dos Espíritos

Freud deve explicar

Por Adriano Monteiro

Escrever sobre a obra de Fellini não é uma tarefa fácil. É necessário um tempo de elucidação razoavelmente longo para digerir muito de suas ideias, experimentações e discurso implementados em cada frame de narrativas visuais impressionantes. Arrisco saltar os olhos para o seu primeiro longa em cores, o “Julieta dos Espíritos“, de 1965. Um exemplo nato das pretensões do cineasta italiano quanto ao cinema que gosta de fazer. Um embarque a uma jornada de sonhos, interpretações de mundo confusas de uma mulher burguesa, apaixonada pelo seu marido infiel. De força imagética impressionante, Julieta é uma viagem sem igual na artificialidade da sétima arte em benefício das emoções mais constrangedoras. De um real-imaginário-fantástico absurdo, que extrapola os limites sensoriais de quem assiste em contato com seus personagens.

O artifício usado aqui, inicialmente, é o de esconder o que se vê. A cena inicial, dirigida brilhantemente, apresenta a protagonista em agitação com suas empregadas. É seu aniversário de casamento, mas não conseguimos ver o seu rosto. Os planos em movimentação constante fazem de tudo para escondê-lo. A sensação é de que nem ela consegue se ver. Essa técnica é utilizada muitas vezes durante o longa pelo uso da luz e sombra, como uma metáfora interessante para o que é essencial, aos olhos de Julieta, de se ver. Quando seu rosto é iluminado pela luz com a chegada de seu marido, um sorriso amarelo, frágil e tenso é marcado. A sensação de desconforto causada por apenas alguns segundos inaugura uma das camadas da personagem, de deslocamento em relação ao mundo.

Nada do que se apresenta após essa introdução é espontâneo em “Julieta dos Espíritos“. O diretor abusa da artificialidade do cinema, joga fora as regras naturalistas de apuro da realidade e conduz o olhar a percepções fantásticas. A insatisfação de Julieta com sua vida, os exageros dos colegas do marido, o fato dele ter esquecido do aniversário, a faz ensaiar alegria em muitas situações. O que consegue lhe despertar interesse é a espiritualidade, esquecida com o tempo. A vida burguesa, de esposa, dona de casa, moradora de uma fortaleza e paparicada por funcionários a fizeram esquecer de si mesma. A cegaram da realidade. Ou melhor, desistiu de sonhar. De fechar os olhos e enxergar uma outra possiblidade de mundo. Quando, por meio dessa festa constrangedora, consegue entrar em contato com um espírito chamado Íris, é como um despertar de um sono profundo.

Fellini aposta na psicologia da protagonista e entrega um filme de personagem. Tudo passa pela interpretação de Julieta, a ponto de cada vez mais ao longo da narrativa confundir o espectador do que é real ou imaginário. A realidade de  “Julieta dos Espíritos” pouco interessa. Quanto mais extravagante melhor. O absurdo vira linguagem. Os figurinos extravagantes de outras mulheres em contraste com a sobriedade dela, a fotografia pulsante, muitas panorâmicas reveladoras, cenas oníricas belíssimas de grande poder imagético, ainda somados com a icônica trilha musical de Nino Rota. Os close da personagem não soam como uma simples exposição emotiva, porque o que parece ser, não é. Incomoda, muitas vezes, mergulhar nessa encenação constante com outros e consigo mesma. O espírito Íris em contato com ela é como mediadora de uma jornada pessoal rumo ao autoconhecimento e emancipação.

A desconfiança com o marido a faz, mais do que contratar detetives para espioná-lo em suas saídas diárias, repensar seu lugar na sociedade. Ela questiona seus ideais, revisita seu passado, conhece outras mulheres, dá espaço a loucura, experimenta o novo, fora da proteção dos muros de sua casa, mas principalmente, conhece Suzy, uma mulher libertária, embaçando sua visão deturpada do que é uma mulher desse tipo: “uma prostituta”. O contraste em tela causado pelas duas é forte o suficiente para colocar um ponto final no processo de transformação da personagem. O filme se desvencilha um pouco do esoterismo para construir, pela primeira vez, uma relação orgânica entre duas pessoas.

“Julieta dos Espíritos“, no entanto, permanece esotérico, misterioso e espiritual até o fim. Até toda essa receita do realismo fantástico entrar em colapso junto com sua personagem, em nome de uma experiência cinematográfica absurda. No melhor nível de um filme que foge das convenções narrativas, propõe algo novo, em cima de um tema comum a muitas mulheres. Assim como o cinema de Fellini procura outros olhares, formas de contar histórias pela experimentação da linguagem, Julieta também responde a esse processo em nome de uma emancipação, ainda não social, não política (mas que não deixa de ser), mas pessoal. A busca de ferramentas para percepções de mundo fora da curva é o que está em jogo em Julieta dos Espíritos. Ao afirmar o tempo todo a capacidade que temos de sonhar e não ignorar a janela que o cinema abre para essa experiência.

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